VERGA-TESA
“A
linguagem judicial instrinsecamente assume uma discrepância nítida entre o
subjetivismo verbal das partes num processo e a objetividade do julgamento.”
Mikhail Bakhtin
Duas coisas
me impressionaram muito quando ela entrou em minha sala; a espuma pelos cantos
da boca, que ajudava a compor uma fisionomia angustiada e furiosa e o bucho,
completamente impertinente à sua idade. Eu não daria menos de sessenta a ela. A
mulher desconhecia ou desconsiderava qualquer regra de boa conduta dentro de um
juizado. Parecia mais um bicho em investida, uma rês braveza, dessas que se via
pelo sertão nos idos daqueles anos, de cabeça inquieta como a procurar algo a
espetar com os cornos.
O policial
do plantão procurava contê-la como se, de fato, um bicho fosse. “A senhora está
na sala do juiz, ele é o juiz, respeita!” Estupefato, observava eu a cena.
Parecia uma das cabras nervosas de meu curral, aquelas que não se afeiçoam ao
tratador e reagem com uma cabeçada a qualquer tentativa de aproximação. Seus
olhos eram assim, ameaçadores. “Juiz, o cabrunco! O que é meu é meu, mando eu!
Nem juiz e nem padre!”
São
Cristovão foi a primeira capital de Sergipe. Alcançou ares de corte e cidade
moderna no período colonial. Hoje está acoplada à grande Aracaju. Provinciana,
sim, e quem anda a pé por aqui pode ver os vestígios daquela época áurea.
Paralelepípedos e igrejas seculares, ruas estreitas e casas coloniais formam
seus históricos cartões postais. Nos anos 70, fui o juiz de paz da comarca.
Doutora
Cecília era a promotora. Um verdadeiro contraste com a paisagem local. Adianto
que apesar dos justificáveis ciúmes de minha esposa, eu não comi e nem soube
quem o fizesse. Tinha um rosto lindo, desenhado sobre a pele clara de quem tem
o sol como aliado. Cabelos lisos e escuros, sempre presos a um penteado sóbrio
e austero que lhe expunha as orelhas delicadamente ornadas por um par de
brincos igualmente sóbrios, mas que lhe emprestava a mesma delicadeza que
exalava da água de cheiro que vinha de seu pescoço. O vermelho suave do batom
sempre a cobrir os lábios que enclausuravam dentes brancos e sadios.
Mas era um
entojo a mulher! Ôh, gênio da bexiga! Sabe aquela expressão de nariz enrugado,
de gente que parece que está com bosta no bigode? Aquela cara de quem tomou remédio
amargo e o gosto foi se alojar lá no fundo da língua? Pronto! Era o retrato da
mulher. Não existia quem não tivesse medo de aproximar dela. Pudores mil se via
até nas roupas, sempre impecáveis no trato do ferro. Nem um sorrisinho, nenhuma
brincadeira, nenhuma proximidade, absolutamente nada de intimidade. Ôh, mulher
sem lado!
“Juíz, o
cabrunco!” me assustou. “O que é meu, é meu!” é coisa de quem está sendo
roubado. Mas que diabos podiam estar querendo tirar duma infeliz como essa?
Tive que gritar com a mulher. Que baderna é essa na minha sala? A senhora quer
que eu lhe tranque na cadeia? A mulher estancou, olhando de soslaio para o
polícia que a segurava pelo braço. O breve silêncio que se fez, permitiu que eu
retomasse a fala. O que está acontecendo aqui, cabo? É essa doida, doutor. Ela
disse que quer falar com o senhor e foi invadindo assim.
Aparentava
uns sessenta anos. Magra e desnutrida, olhos cadavéricos, pele quebradiça e
maltratada. Cabelos desalinhados, amarelados pela poeira da caatinga,
inutilmente amarrados com um laço de trapo qualquer. Sandália de couro cru nos
pés sujos e sem trato indicavam uma possível caminhada longa até o fórum. Eu
despachava com a promotora um caso complicado que vinha tirando meu sono.
Doutora Cecília olhou para mim como quem não acreditava no que estava vendo
acontecer. Indignada, inquiriu-me com os olhos e franziu o nariz como a
pedir-me uma atitude. Ter o seu trabalho interrompido por uma do povo era inadmissível.
Pronto!
Minha
senhora, sente-se aqui. Cabo, busque um copo dágua pra ela. A coitada tá espumando
os cantos da boca. Se acalme! Pronto! Enquanto o cabo providenciava o que
mandei, a promotora juntou os papéis e quis levantar-se, mas eu a impedi. Pedi
que ficasse e acompanhasse o caso. Está mais calma? Me diga, a senhora está
grávida? Estou sim, doutor. Ôxe, emprenhando nessa idade! Quantos anos a
senhora tem? Não é por isso que eu tô aqui não, doutor. Então, me diga, o que é
que está lhe causando esse aperreio todo? É o meu marido, doutor. Se o senhor
não der um jeito nele, eu vou furar ele de faca. Pronto! E porque a senhora
quer fazer isso? Olhe, macho, eu sei que o senhor tem os poderes de me trancar
na cadeia, mas escute o que estou a lhe dizer, homem nenhum vai comer o meu cu.
O cu
apareceu justamente no momento que meus olhos e os da promotora estavam fixos
um no outro, espantados de um juiz ser chamado meramente de macho. A doutora
arregalou os olhos de tal forma que me lembrou uma coruja e o seu rosto branco
ficou vermelho como as patas do guaiamum bem cozido. Acho que ela quis
levantar, mas as pernas não quiseram e nem a boca quis fechar e assim ficou. As
veias do meu pescoço engrossaram de um jeito que eu pensei que iam arrebentar
tentando segurar o riso. A pobre pudorada promotora quis não olhar pra mim, mas
o pescoço não quis desviar não, parecia que petrificou de vergonha. Antes que
eu arrebentasse em gargalhadas, levantei num ímpeto e bradei com o cabo que já
ia fugindo pela porta para rir do lado de fora.
Que diabos é
isso, cabo? Como é que você me deixa uma coisa dessas? Eu, doutor? Eu, doutor?
E ambos tentávamos não olhar para a promotora. A senhora pode me explicar o que
está falando, minha senhora? Mas com um pouco mais de educação nessa língua. A
conversa é curtinha, macho, e só vou falar uma vez, depois é problema do senhor
que é a lei, se quiser evitar uma desgraça. De uns meses pra cá, meu marido, um
homem já de mais de sessenta anos na venta, cismou de me comer até três vezes
por dia. Até aí tá no direito dele, tanto que tô prenha. Mas, agora, o cabra
cismou que quer comer o meu cu e se ele fizer isso, vai morrer na ponta da
minha faca. E teje o meu dito. Tal qual dissera, deu-me as costas e passou pela
porta.
Usando toda
minha reserva de seriedade e compostura, desviando ainda o olhar da promotora,
mandei que o cabo acompanhasse aquela mulher até em casa e trouxesse o marido
dela até o fórum, imediatamente. Precisava evitar a tragédia.
Quando o
homem chegou, mal entrou em minha sala e já foi dizendo que a história do cu
era mentira. E o senhor está comendo sua
senhora quantas vezes por dia? Duas, doutor. Às vezes, três. Todo dia? Sim,
senhor. Todo santo dia? Nos dias santo também, doutor. Reclinado em minha cadeira, olhei para o cabo, ele olhou para mim e fizemos silêncio por uns instantes. Afinal de contas, o que é que o senhor come? Eu vou lhe trazer uma muda da raiz, doutor, e o
senhor vai ver só.