Vai saber...
Seu rosto era o de um príncipe de contos de fadas. Seu
sorriso encantava, entorpecia. Os cabelos lisos e claros, divididos ao meio,
escorriam até o rosto em madeixas cor de mel, emoldurando os traços de um rosto
másculo e sedutor. Impossível resistir àqueles olhos que emprestavam a cor ao
céu. Seus lábios vermelhos e carnudos poderiam seduzir a mais convicta das
virgens com o menor dos chamados e o queixo repartido por uma fissura profunda
conferia ao conjunto uma beleza avassaladora.
Notícia de se tê-lo visto em desalinho não havia quem a
desse. Do visual não descuidava e fazia do linho, sempre, um grande aliado.
Sapatos sempre polidos e engraxados, calças e camisa impecavelmente bem
passadas comungavam invariavelmente a imagem que todo homem refinado aspirava
para si próprio. Era a elegância em pessoa.
Por onde passava arrancava suspiros e comentários sobre sua
beleza. Mais que desejado, era sonhado, amado, cobiçado pelas solteiras. Impossível
não virar o rosto em sua direção quando cruzava pelo mesmo caminho que elas. O
rosto, intencionalmente imberbe, exalava uma fragrância feromônica que depois
de escanhoado inspirava lascivamente o pecado nas casadas. Não havia homem que
o conhecesse que não odiasse ter nascido no mesmo tempo e espaço que ele.
Não bastassem todos os predicados físicos que lhe conferiu
tão parcialmente o criador, era nascido em berço de ouro. Filho único de um
milionário banqueiro crescera cercado de mimos e os cuidados mais esmerados do
pai zeloso. Aos dezesseis anos já era considerado um atleta perfeito. Imbatível
nadador, quebrava recordes e mais recordes nos jogos estudantis. Assustava sua
habilidade com a bola e o prazer com que se dedicava a uma simples pelada. Judoca, tenista, esgrimista, era íntimo de
quase todas as modalidades desportivas.
Fruto de habilidosa educação, aprendera com o pai e
desenvolvera incrível sensibilidade para a gestão financeira, contrariando as
pessimistas premissas de “casa de ferreiro espeto de pau.” Belo, inteligente,
rico, bom caráter, amado, reunia toda fortuna que o destino pode premiar um
mortal.
Contudo, destarte o despeito natural que inspirava nos
corações masculinos, um sorrisinho maldoso e vingativo os homens que o
invejavam podiam esboçar triunfantes. Nem tanto por eles mesmos, mas para
atingir o coração de suas mulheres que indignadas torciam o nariz quando viam o
casal passeando alheios ao despeito delas.
Casara-se ele com aquela que entre todas era a mais feia.
Seus cabelos eram quebradiços e ressecados como os de uma espiga que fora
esquecida ao sol. Sua pele esturricada e visitada pelas estrias permitia
metáfora com o chão do agreste. Seus olhos cor de baço pareciam querer fugir da
órbita e nenhum adereço caía-lhe realmente bem. Tiaras, brincos e maquiagem não
lhe eram simpáticos. É como se os acessórios se recusassem ao préstimo de
alguma elegância.
Prendas domésticas não deveriam ser o motivo. Quem a
conhecia atestava sua inabilidade no trato da cozinha desde menina. No colégio
nem observada era, salvo para alguma chacota. A única coisa que justificaria um
casamento como esse seria o dinheiro, mas era justamente o que ela menos tinha.
Filha de um pobre funcionário da prefeitura local, vivera uma infância em
condições adversas. Mal nutrida, desenvolvera ligeiro raquitismo, estudou
pouco, tinha dificuldades cognitivas, uma voz que incomodava os ouvidos alheios
e uma cara aborrecida que denunciava um mau-humor crônico. Sabe aqueles
desgraçados de nascença que ao olhar para eles sente-se vontade de desgraçar-lhes
mais ainda?
Indignada, a população feminina não encontrava explicação
que validasse teoria que justificasse o imbróglio. Nem poderiam. Não fossem os
quadros nas paredes as únicas testemunhas que veem o que se passa na câmara dos
casais, talvez que se soubesse.
Quem sabe revelariam que no baixar do véu que cobre o ninho
dos amantes, a carne feia e flácida, desprovida de viço, perdesse importância
aos olhos do marido e que um metódico despir, expulsando as meias femininas,
revelasse um par de pesinhos delicados, macios, brancos e suaves, fazendo o
sangue do esposo ferver nas veias e reagir de falo rígido ao contato dos
dedinhos dos pés em seus lábios.
