sexta-feira, 24 de maio de 2013


Vai saber...

     Seu rosto era o de um príncipe de contos de fadas. Seu sorriso encantava, entorpecia. Os cabelos lisos e claros, divididos ao meio, escorriam até o rosto em madeixas cor de mel, emoldurando os traços de um rosto másculo e sedutor. Impossível resistir àqueles olhos que emprestavam a cor ao céu. Seus lábios vermelhos e carnudos poderiam seduzir a mais convicta das virgens com o menor dos chamados e o queixo repartido por uma fissura profunda conferia ao conjunto uma beleza avassaladora.
     Notícia de se tê-lo visto em desalinho não havia quem a desse. Do visual não descuidava e fazia do linho, sempre, um grande aliado. Sapatos sempre polidos e engraxados, calças e camisa impecavelmente bem passadas comungavam invariavelmente a imagem que todo homem refinado aspirava para si próprio. Era a elegância em pessoa.
     Por onde passava arrancava suspiros e comentários sobre sua beleza. Mais que desejado, era sonhado, amado, cobiçado pelas solteiras. Impossível não virar o rosto em sua direção quando cruzava pelo mesmo caminho que elas. O rosto, intencionalmente imberbe, exalava uma fragrância feromônica que depois de escanhoado inspirava lascivamente o pecado nas casadas. Não havia homem que o conhecesse que não odiasse ter nascido no mesmo tempo e espaço que ele.
     Não bastassem todos os predicados físicos que lhe conferiu tão parcialmente o criador, era nascido em berço de ouro. Filho único de um milionário banqueiro crescera cercado de mimos e os cuidados mais esmerados do pai zeloso. Aos dezesseis anos já era considerado um atleta perfeito. Imbatível nadador, quebrava recordes e mais recordes nos jogos estudantis. Assustava sua habilidade com a bola e o prazer com que se dedicava a uma simples pelada.  Judoca, tenista, esgrimista, era íntimo de quase todas as modalidades desportivas.
     Fruto de habilidosa educação, aprendera com o pai e desenvolvera incrível sensibilidade para a gestão financeira, contrariando as pessimistas premissas de “casa de ferreiro espeto de pau.” Belo, inteligente, rico, bom caráter, amado, reunia toda fortuna que o destino pode premiar um mortal.
     Contudo, destarte o despeito natural que inspirava nos corações masculinos, um sorrisinho maldoso e vingativo os homens que o invejavam podiam esboçar triunfantes. Nem tanto por eles mesmos, mas para atingir o coração de suas mulheres que indignadas torciam o nariz quando viam o casal passeando alheios ao despeito delas.
     Casara-se ele com aquela que entre todas era a mais feia. Seus cabelos eram quebradiços e ressecados como os de uma espiga que fora esquecida ao sol. Sua pele esturricada e visitada pelas estrias permitia metáfora com o chão do agreste. Seus olhos cor de baço pareciam querer fugir da órbita e nenhum adereço caía-lhe realmente bem. Tiaras, brincos e maquiagem não lhe eram simpáticos. É como se os acessórios se recusassem ao préstimo de alguma elegância.
     Prendas domésticas não deveriam ser o motivo. Quem a conhecia atestava sua inabilidade no trato da cozinha desde menina. No colégio nem observada era, salvo para alguma chacota. A única coisa que justificaria um casamento como esse seria o dinheiro, mas era justamente o que ela menos tinha. Filha de um pobre funcionário da prefeitura local, vivera uma infância em condições adversas. Mal nutrida, desenvolvera ligeiro raquitismo, estudou pouco, tinha dificuldades cognitivas, uma voz que incomodava os ouvidos alheios e uma cara aborrecida que denunciava um mau-humor crônico. Sabe aqueles desgraçados de nascença que ao olhar para eles sente-se vontade de desgraçar-lhes mais ainda?
    Indignada, a população feminina não encontrava explicação que validasse teoria que justificasse o imbróglio. Nem poderiam. Não fossem os quadros nas paredes as únicas testemunhas que veem o que se passa na câmara dos casais, talvez que se soubesse.
    Quem sabe revelariam que no baixar do véu que cobre o ninho dos amantes, a carne feia e flácida, desprovida de viço, perdesse importância aos olhos do marido e que um metódico despir, expulsando as meias femininas, revelasse um par de pesinhos delicados, macios, brancos e suaves, fazendo o sangue do esposo ferver nas veias e reagir de falo rígido ao contato dos dedinhos dos pés em seus lábios.
    Quem sabe?  

2 comentários:

  1. É isso aí meu amigo Cláudio, vai saber. Parabéns.

    ResponderExcluir
  2. Excelente conto... a riqueza de detalhes realmente faz toda diferença. Sabe que em um momento pensei que você estivesse me descrevendo, exceto quando descreveu os olhos. Hehehe

    ResponderExcluir