Os meninos do grupo
"enfurecidos
os meninos apearam e aplicaram-lhe com um pau
encontrado/a ação do coito/pobre coitado"
O Pasto do Rebanho
O Pasto do Rebanho
Minha esposa
estava servindo o almoço às crianças, eram nove ao todo, três meninos e seis
meninas. Quatro delas, eram os meus filhos, os demais, sobrinhos. Eram nove,
mas pareciam uns cinqüenta. Meu pai,
balançando-se numa rede armada na área, observava a algazarra da meninada.
Minha esposa chamou-o para servir-se, mas ele recusou dizendo: "Eu, hein?!
Serve essa tropa primeiro, até parece a merenda dos meninos do grupo."
De fato, o
barulho provocado pela meninada, fazia-os parecer um batalhão. Gritos, choros,
risadas e o bradar de alerta das outras mães que também se movimentavam em
torno do fogão caipira, ao lado da minha esposa, ajudavam a deixar o ambiente
mais cheio. Algumas das crianças já estavam sentadas à mesa. Outras, os
pequenos, sentados no chão da área, com o prato entre as pernas e a colher na
mão. "É pra comer tudo, viu?", recomendava uma das cunhadas,
"sem derramar comida no chão", aconselhava a outra.
Meu irmão
trouxe da geladeira uma garrafa de coca-cola e a abriu com o cabo do garfo,
provocando um estouro ao destampear a garrafa. A criançada vibrou com o
estampido. Não demorou para que algumas delas tentassem imitar o gesto do tio e
derramassem o refrigerante pelo forro da mesa e pelo chão. Uma das mães acudiu:
"Iiih! Olha só o que vocês estão fazendo!" A esta altura já havia
arroz esparramado pelo chão inteiro, misturado com refrigerante e com frutas.
"Ai, meu Deus! Quem é que aguenta isso?"
Meu pai, que
observava a "Torre de Babel", bebericando um copo de vinho tinto,
levantou-se da rede e interveio: "Deixa os meninos. Deixa eles fazerem a
bagunça deles. Criança é assim mesmo, nem o capeta pode com eles. Aliás, a
coisa que o capeta mais tem medo, é de menino. Deixa eu contar uma história pra
vocês..."
Meu pai é um
homem forte, um pouco gordo, aliás, barrigudo. Resultado de vários anos de
cerveja. Gosta de contar histórias e dá longas gargalhadas ao concluí-las. Com
seu gesto natural para ajeitar a bermuda à cintura, aproximou-se da mesa e
puxou uma cadeira. Pegou um prato, serviu-se, e com o garfo na mão começou a
história: "Vocês sabem qual a coisa que o capeta mais tem medo no mundo?
Que é de criança eu já falei, mas vocês sabem por quê? Por que um bando de
crianças juntas, nem o capeta aguenta. Dizem os antigos que quando o sino do
grupo bate para o recreio ou para a saída dos alunos, o capeta fica paralisado
de medo.
Uma vez, o tinhoso tava andando pelo mato
procurando um para atentar, quando, de repente, ele escutou um sino de escola e
junto a gritaria da meninada. Tinha acabado a aula naquela hora e os meninos
saíam correndo. No susto, ele ficou paralisado. Pra poder escapar, ele se
transformou em uma bosta de vaca e ficou ali, quietinho esperando a pirralhada
passar. Os moleques, todos de estilingue na mão, aproveitavam a volta pra casa
pra ir caçando passarinho.
Naqueles
tempos, a molecada voltava pra casa era a pé, morava na roça e andava era
muito pra chegar em casa. Só que naquele dia a meninada não avistou uma rolinha
sequer para poder matar. Como não tinha passarinho nenhum, os moleques olharam
para a bosta de vaca e falaram: "Ah! Já que não tem passarinho mesmo,
vamos aproveitar pra treinar a pontaria naquela bosta." E deram tanta
pedrada no coitado, que o danado nunca mais quis passar por aquele lugar.
A essas
palavras seguiu a gargalhada prazerosa do velho, misturada com a ovação dos
netos que escutavam a história atentamente. Satisfeito com a reação da plateia,
o velho continuou: "E tem mais uma,
escuta só. Num outro dia, depois que o
chifrudo melhorou das pedradas, ele pra poder atentar um encomendado, tinha que
passar justamente perto do grupo de novo. Só que desta vez ele se preveniu e
resolveu passar por lá no horário entre o recreio e a saída, que era para não
correr risco de encontrar criança em bando. Mas o que ele não sabia é que, na
hora do recreio, um bando de moleques resolveu cabular a aula e fugiu da escola
pra ver quem matava mais passarinho. O capeta, que já tava com medo, quando viu
os meninos, todos de estilingue na mão, paralisou de medo, só que desta vez, ao
invés de se transformar em bosta de vaca, ele se transformou num burro velho,
supondo que os meninos iam ter dó do burro e deixá-lo em paz. Mas como criança
não tem jeito, pois eles sempre acham uma maneira de fazer arte, o capeta se
ferrou de novo. Os moleques, vendo o burro, resolveram montar nele. E montaram
uns três ou quatro duma vez, metendo os calcanhares na barriga dele pra ele
andar. Mas acontece que ele tava paralisado de medo e não dava conta de andar.
Os meninos ficaram com raiva. Achando que o burro tava empacado, pegaram um
punhado de capim seco, puseram debaixo do burro e atearam fogo, sapecando até o
saco dele. Como o danado tava paralisado e não saiu do lugar, um dos moleques
falou: "Ave Maria! Que burro mais lerdo, sô! Já que esse burro não anda
nem com fogo na barriga dele, vamos pegar a forquilha do estilingue e socar no cu
dele."
Novamente a
costumeira gargalhada, que era o indicador do final da história, misturou-se à
algazarra dos netos.
Alguns
minutos depois, os moleques estavam trepados na goiabeira, cortando forquilhas
para seus estilingues.
