Caso de amor
Conheceram-se pela internet,
nestes sites de relacionamento adulto. O perfil dela casara-se muito bem com os
anseios dele. Marcaram em um café na Alameda Santos.
Sentado à mesa, com uma caneca
fumegante de vinho quente às mãos, pode vê-la entrando pela porta de vidro. Gentilmente
ele puxou a cadeira, oferecendo-lhe acento. Ela agradeceu e quando o azul de
seus olhos contemplou o negro dos dele, a imantação se fez. Houve uma
identificação, um magnetismo que fez com que gravitassem um na órbita do outro.
“Vinho quente?” As noites paulistanas no meio
do ano costumam ser frias como o misto de medo e excitação que a envolvia.
Acenou um sim com a cabeça e procurou conter a respiração que insistia em
ofegar. Ele chamou o garçon, que tirou da bandeja uma caneca, colocando-a sobre
o descanso à sua frente. Ela aproveitou o cheiro forte da canela, conduzido
pelo vapor, para respirar fundo fechando os olhos e acalmar-se. “Adoro vinho
quente.”
Já conhecia-lhe as preferências.
O gosto musical, os discos favoritos, os autores de cabeceira, alguns costumes
domésticos, os anseios sexuais, as revelações no perfil do site e o principal;
as fantasias, força motivadora desse encontro.
Disposta a continuar? Por que
não? É indiscreto perguntar se é casada? É. Tem medo de se arrepender? Só do
que não faço. Você é peludo? Como? Pelos no peito, você tem? Não muito. Isso é
problema? Não. Quer recuar? Não depois de ter chegado até aqui. No meu carro?
Eu no meu. Separados? Garagem para dois. Nervosa? Já passou. Você está
tremendo. Está frio. Não imaginei que fosse tão bonita. Obrigada. Já fez isso, antes? Não, vai ser a primeira vez.
Já teve outras experiências? Nada comparável a isso. Acha que vai ser legal? É o
propósito. Então? Vamos terminar o vinho? Prefiro não. Ansioso? Um pouco.
Trouxe tudo? Sim. Vamos?Vamos.
Passava das nove quando a
recepcionista do flat, em Moema, registrou a entrada do casal. Pouco mais de
três horas depois, acertaram a conta e saíram. Estacionaram os carros próximo
ao Ibirapuera e iniciaram, lado a lado, um caminhar pelo calçadão externo do
parque.
Adoro esse vento gelado no rosto. Eu também
gosto. Meu cabelo está um pouquinho molhado.Você vai congelar. É só nas pontas.
Se eu te abraçar você se aquece, posso? Aqui, na rua? É tarde, não há
ninguém.Você quer me abraçar? Você não precisa. Quero sim. Aliás, é tudo que eu
quero agora.
Que fazia ali, abraçada a um
homem que, há quatro horas antes, sequer conhecia? Um completo desconhecido a
quem entregara e compartilhara segredos que a nenhum outro permitira saber, nem
mesmo aqueles a quem amara?
Como fora capaz de revelar tanto
a uma mulher e que sensação era aquela que o envolvia de forma tão ardente,
despertando nele um desejo quase paternal, mas incestuoso, de proteção?
Você é casada? É a segunda vez
que você quer saber isso. É que... Faz tanta diferença assim? Talvez não. Outra
hora a gente fala sobre isso. Então, nos veremos de novo? Você quer? Claro. Fiquei com medo de você
ter se arrependido. Não, de forma alguma. Estou feliz. Sem culpa? Por que
ficaria?
Debruçado sobre seu carro,
acompanhou o dela até que se perdesse de vista. A noite paulistana nunca fora
tão bela.
Entrara no site e viu que o nick dela fora
deletado. Ficou apavorado, não suportava a idéia de não mais encontrá-la.
Dependia, agora, exclusivamente do contato dela. Ela tinha o número do celular,
ele não. Passou a não desgrudar do telefone. Estava apaixonado. Ridiculamente
apaixonado e feliz. Os dias se arrastavam intermináveis e sem um email sequer.
Finalmente, uma semana depois,
uma chamada de número confidencial. Olhou para o aparelho, batimento cardíaco
alterado, sabia que era ela. Pressionou a tecla e esperou o som da voz. “Quer
viver tudo aquilo de novo?”
Novamente deixaram o flat no
início da madrugada. Estavam com fome e, para quem gosta de massa, no Bexiga
estão as melhores cantinas do Brasil, o canelone mais suculento, acompanhado de molho, violino
e sanfona italiana. Que mundo belo!
Sentiu minha falta? Ao ponto de
escrever um poema para você. Jura? Deixa eu ver. Nem morto, ficou ridículo. Não
é para mim? É. Então é meu. Mas é ridículo. Eu decido isso, quero ver. Se faz
questão...
O que achou, ridículo não? Concordo, é
ridículo mesmo. E, também, tudo que uma mulher quer ver um homem fazendo por
ela. Então, você gostou? É lindo! Fala do que fizemos. Eu nunca pensei que
encontraria alguém com quem pudesse dividir isso. Por que não me ligou antes?
Estava cortando alguns laços. Cortou? Alguns são incortáveis. Eu também nunca faria
o que fizemos, com outra pessoa. Por que não, se fez comigo? Você deve ser ou
já foi casada e mesmo assim, nunca fez isso com seu marido. É como se a
condição para viver essa experiência dependesse simplesmente de existirmos eu e
você. Sem você, sem isso. Sabe o que me
ocorreu? Diz. Quero voltar ao flat. Agora? É. Tudo bem? Claro, é que assim,
duas vezes, no mesmo dia...
O café-da-manhã, no flat, era
servido até as dez. Foi quando acordaram. Ela apavorada com o horário. Depois
do banho rápido, desceram juntos até o estacionamento no subsolo.
Deixa um número para eu te ligar.
Não posso, ainda. Mas... Eu ligo. E se não ligar? Eu ligo, prometo. Seu
email... Por ora, não. É perigoso para mim. Então, escreve. Eu ligo. Agora,
deixa eu ir. Fica. Não posso, preciso ir. Não vá. Tchau, a gente se fala. Eu
ligo, prometo. Hoje? Talvez. Como talvez? Liga hoje. Hoje eu não sei. Amanhã.
Promete? Amanhã. Depois também. Vamos nos ver amanhã. Ver não dá, mas eu ligo.
Quero te ver amanhã, preciso te ver amanhã. Está bom, vamos ver. Vamos ver ou
vamos nos ver? Veremos. Agora, deixa eu ir. Fica. Tchau. Não.
Impotente, ficou estático vendo o
carro sair lentamente pela garagem e ganhar a rua, depois fez o mesmo. Trânsito
caótico, tão típico da capital paulista, emperrou na segunda quadra. Reconheceu
o carro dela à frente. Ela abriu a porta, desceu do carro e veio lentamente
caminhando ao seu encontro. Ele desceu, num ímpeto e estancou de pé, em meio ao
famoso trânsito paulistano. “Só posso estar perdendo o juízo.” Assistiram, os
paulistanos, desentendidos, à inusitada cena de um cálido beijo de amantes
alheios ao caos diário.
Desde então, não a viu mais? Não,
aquela foi a última vez. Quanto tempo? Quatro meses. Como está se sentindo? Como
se nada mais importasse. Como se o chão tivesse sumido, como se eu não
existisse mais, como se eu não quisesse mais existir. E a fantasia? O que é que
tem? Não a realizou mais? Claro que não. Você se sentia bem fazendo isso, seja
lá o que for? Muito, muito mesmo. Quer me contar sobre a fantasia? Ah, isso
nunca!
...Será que a fantasia tem a ver com pezinho de veludo e tal? kkkk
ResponderExcluirAcho que cada um pode imaginar algo.
ExcluirPezinho de veludo? Essa é muito boa.
ExcluirExcelente.Muito bom ler e reler este texto.
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ResponderExcluirPois é, acontece... Mais um conto excelente. Parabéns