quarta-feira, 12 de junho de 2013

Um Caso de Amor

Caso de amor
Conheceram-se pela internet, nestes sites de relacionamento adulto. O perfil dela casara-se muito bem com os anseios dele. Marcaram em um café na Alameda Santos.
Sentado à mesa, com uma caneca fumegante de vinho quente às mãos, pode vê-la entrando pela porta de vidro. Gentilmente ele puxou a cadeira, oferecendo-lhe acento. Ela agradeceu e quando o azul de seus olhos contemplou o negro dos dele, a imantação se fez. Houve uma identificação, um magnetismo que fez com que gravitassem um na órbita do outro.
 “Vinho quente?” As noites paulistanas no meio do ano costumam ser frias como o misto de medo e excitação que a envolvia. Acenou um sim com a cabeça e procurou conter a respiração que insistia em ofegar. Ele chamou o garçon, que tirou da bandeja uma caneca, colocando-a sobre o descanso à sua frente. Ela aproveitou o cheiro forte da canela, conduzido pelo vapor, para respirar fundo fechando os olhos e acalmar-se. “Adoro vinho quente.”
Já conhecia-lhe as preferências. O gosto musical, os discos favoritos, os autores de cabeceira, alguns costumes domésticos, os anseios sexuais, as revelações no perfil do site e o principal; as fantasias, força motivadora desse encontro.
Disposta a continuar? Por que não? É indiscreto perguntar se é casada? É. Tem medo de se arrepender? Só do que não faço. Você é peludo? Como? Pelos no peito, você tem? Não muito. Isso é problema? Não. Quer recuar? Não depois de ter chegado até aqui. No meu carro? Eu no meu. Separados? Garagem para dois. Nervosa? Já passou. Você está tremendo. Está frio. Não imaginei que fosse tão bonita. Obrigada. Já  fez isso, antes? Não, vai ser a primeira vez. Já teve outras experiências? Nada comparável a isso. Acha que vai ser legal? É o propósito. Então? Vamos terminar o vinho? Prefiro não. Ansioso? Um pouco. Trouxe tudo? Sim. Vamos?Vamos.
Passava das nove quando a recepcionista do flat, em Moema, registrou a entrada do casal. Pouco mais de três horas depois, acertaram a conta e saíram. Estacionaram os carros próximo ao Ibirapuera e iniciaram, lado a lado, um caminhar pelo calçadão externo do parque.
 Adoro esse vento gelado no rosto. Eu também gosto. Meu cabelo está um pouquinho molhado.Você vai congelar. É só nas pontas. Se eu te abraçar você se aquece, posso? Aqui, na rua? É tarde, não há ninguém.Você quer me abraçar? Você não precisa. Quero sim. Aliás, é tudo que eu quero agora.
Que fazia ali, abraçada a um homem que, há quatro horas antes, sequer conhecia? Um completo desconhecido a quem entregara e compartilhara segredos que a nenhum outro permitira saber, nem mesmo aqueles a quem amara?
Como fora capaz de revelar tanto a uma mulher e que sensação era aquela que o envolvia de forma tão ardente, despertando nele um desejo quase paternal, mas incestuoso, de proteção?
Você é casada? É a segunda vez que você quer saber isso. É que... Faz tanta diferença assim? Talvez não. Outra hora a gente fala sobre isso. Então, nos veremos de novo?   Você quer? Claro. Fiquei com medo de você ter se arrependido. Não, de forma alguma. Estou feliz. Sem culpa? Por que ficaria?
Debruçado sobre seu carro, acompanhou o dela até que se perdesse de vista. A noite paulistana nunca fora tão bela.
 Entrara no site e viu que o nick dela fora deletado. Ficou apavorado, não suportava a idéia de não mais encontrá-la. Dependia, agora, exclusivamente do contato dela. Ela tinha o número do celular, ele não. Passou a não desgrudar do telefone. Estava apaixonado. Ridiculamente apaixonado e feliz. Os dias se arrastavam intermináveis e sem um email sequer.
Finalmente, uma semana depois, uma chamada de número confidencial. Olhou para o aparelho, batimento cardíaco alterado, sabia que era ela. Pressionou a tecla e esperou o som da voz. “Quer viver tudo aquilo de novo?”
Novamente deixaram o flat no início da madrugada. Estavam com fome e, para quem gosta de massa, no Bexiga estão as melhores cantinas do Brasil, o canelone  mais suculento, acompanhado de molho, violino e sanfona italiana. Que mundo belo!
Sentiu minha falta? Ao ponto de escrever um poema para você. Jura? Deixa eu ver. Nem morto, ficou ridículo. Não é para mim? É. Então é meu. Mas é ridículo. Eu decido isso, quero ver. Se faz questão...
 O que achou, ridículo não? Concordo, é ridículo mesmo. E, também, tudo que uma mulher quer ver um homem fazendo por ela. Então, você gostou? É lindo! Fala do que fizemos. Eu nunca pensei que encontraria alguém com quem pudesse dividir isso. Por que não me ligou antes? Estava cortando alguns laços. Cortou? Alguns são incortáveis. Eu também nunca faria o que fizemos, com outra pessoa. Por que não, se fez comigo? Você deve ser ou já foi casada e mesmo assim, nunca fez isso com seu marido. É como se a condição para viver essa experiência dependesse simplesmente de existirmos eu e você. Sem você, sem isso.  Sabe o que me ocorreu? Diz. Quero voltar ao flat. Agora? É. Tudo bem? Claro, é que assim, duas vezes, no mesmo dia...
O café-da-manhã, no flat, era servido até as dez. Foi quando acordaram. Ela apavorada com o horário. Depois do banho rápido, desceram juntos até o estacionamento no subsolo.
Deixa um número para eu te ligar. Não posso, ainda. Mas... Eu ligo. E se não ligar? Eu ligo, prometo. Seu email... Por ora, não. É perigoso para mim. Então, escreve. Eu ligo. Agora, deixa eu ir. Fica. Não posso, preciso ir. Não vá. Tchau, a gente se fala. Eu ligo, prometo. Hoje? Talvez. Como talvez? Liga hoje. Hoje eu não sei. Amanhã. Promete? Amanhã. Depois também. Vamos nos ver amanhã. Ver não dá, mas eu ligo. Quero te ver amanhã, preciso te ver amanhã. Está bom, vamos ver. Vamos ver ou vamos nos ver? Veremos. Agora, deixa eu ir. Fica. Tchau. Não.
Impotente, ficou estático vendo o carro sair lentamente pela garagem e ganhar a rua, depois fez o mesmo. Trânsito caótico, tão típico da capital paulista, emperrou na segunda quadra. Reconheceu o carro dela à frente. Ela abriu a porta, desceu do carro e veio lentamente caminhando ao seu encontro. Ele desceu, num ímpeto e estancou de pé, em meio ao famoso trânsito paulistano. “Só posso estar perdendo o juízo.” Assistiram, os paulistanos, desentendidos, à inusitada cena de um cálido beijo de amantes alheios ao caos diário.

Desde então, não a viu mais? Não, aquela foi a última vez. Quanto tempo? Quatro meses. Como está se sentindo? Como se nada mais importasse. Como se o chão tivesse sumido, como se eu não existisse mais, como se eu não quisesse mais existir. E a fantasia? O que é que tem? Não a realizou mais? Claro que não. Você se sentia bem fazendo isso, seja lá o que for? Muito, muito mesmo. Quer me contar sobre a fantasia? Ah, isso nunca!

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