sexta-feira, 28 de junho de 2013

Os Meninos do Grupo

Os meninos do grupo
"enfurecidos os meninos apearam e aplicaram-lhe com um pau encontrado/a ação do coito/pobre coitado"
O Pasto do Rebanho

Minha esposa estava servindo o almoço às crianças, eram nove ao todo, três meninos e seis meninas. Quatro delas, eram os meus filhos, os demais, sobrinhos. Eram nove, mas pareciam uns cinqüenta.  Meu pai, balançando-se numa rede armada na área, observava a algazarra da meninada. Minha esposa chamou-o para servir-se, mas ele recusou dizendo: "Eu, hein?! Serve essa tropa primeiro, até parece a merenda dos meninos do grupo."
De fato, o barulho provocado pela meninada, fazia-os parecer um batalhão. Gritos, choros, risadas e o bradar de alerta das outras mães que também se movimentavam em torno do fogão caipira, ao lado da minha esposa, ajudavam a deixar o ambiente mais cheio. Algumas das crianças já estavam sentadas à mesa. Outras, os pequenos, sentados no chão da área, com o prato entre as pernas e a colher na mão. "É pra comer tudo, viu?", recomendava uma das cunhadas, "sem derramar comida no chão", aconselhava a outra.
Meu irmão trouxe da geladeira uma garrafa de coca-cola e a abriu com o cabo do garfo, provocando um estouro ao destampear a garrafa. A criançada vibrou com o estampido. Não demorou para que algumas delas tentassem imitar o gesto do tio e derramassem o refrigerante pelo forro da mesa e pelo chão. Uma das mães acudiu: "Iiih! Olha só o que vocês estão fazendo!" A esta altura já havia arroz esparramado pelo chão inteiro, misturado com refrigerante e com frutas. "Ai, meu Deus! Quem é que aguenta isso?"
Meu pai, que observava a "Torre de Babel", bebericando um copo de vinho tinto, levantou-se da rede e interveio: "Deixa os meninos. Deixa eles fazerem a bagunça deles. Criança é assim mesmo, nem o capeta pode com eles. Aliás, a coisa que o capeta mais tem medo, é de menino. Deixa eu contar uma história pra vocês..."

Meu pai é um homem forte, um pouco gordo, aliás, barrigudo. Resultado de vários anos de cerveja. Gosta de contar histórias e dá longas gargalhadas ao concluí-las. Com seu gesto natural para ajeitar a bermuda à cintura, aproximou-se da mesa e puxou uma cadeira. Pegou um prato, serviu-se, e com o garfo na mão começou a história: "Vocês sabem qual a coisa que o capeta mais tem medo no mundo? Que é de criança eu já falei, mas vocês sabem por quê? Por que um bando de crianças juntas, nem o capeta aguenta. Dizem os antigos que quando o sino do grupo bate para o recreio ou para a saída dos alunos, o capeta fica paralisado de medo.
 Uma vez, o tinhoso tava andando pelo mato procurando um para atentar, quando, de repente, ele escutou um sino de escola e junto a gritaria da meninada. Tinha acabado a aula naquela hora e os meninos saíam correndo. No susto, ele ficou paralisado. Pra poder escapar, ele se transformou em uma bosta de vaca e ficou ali, quietinho esperando a pirralhada passar. Os moleques, todos de estilingue na mão, aproveitavam a volta pra casa pra ir caçando passarinho.
Naqueles tempos, a molecada voltava pra casa era  a pé, morava na roça e andava era muito pra chegar em casa. Só que naquele dia a meninada não avistou uma rolinha sequer para poder matar. Como não tinha passarinho nenhum, os moleques olharam para a bosta de vaca e falaram: "Ah! Já que não tem passarinho mesmo, vamos aproveitar pra treinar a pontaria naquela bosta." E deram tanta pedrada no coitado, que o danado nunca mais quis passar por aquele lugar.
A essas palavras seguiu a gargalhada prazerosa do velho, misturada com a ovação dos netos que escutavam a história atentamente. Satisfeito com a reação da plateia, o velho continuou: "E tem mais uma,
escuta só. Num outro dia, depois que o chifrudo melhorou das pedradas, ele pra poder atentar um encomendado, tinha que passar justamente perto do grupo de novo. Só que desta vez ele se preveniu e resolveu passar por lá no horário entre o recreio e a saída, que era para não correr risco de encontrar criança em bando. Mas o que ele não sabia é que, na hora do recreio, um bando de moleques resolveu cabular a aula e fugiu da escola pra ver quem matava mais passarinho. O capeta, que já tava com medo, quando viu os meninos, todos de estilingue na mão, paralisou de medo, só que desta vez, ao invés de se transformar em bosta de vaca, ele se transformou num burro velho, supondo que os meninos iam ter dó do burro e deixá-lo em paz. Mas como criança não tem jeito, pois eles sempre acham uma maneira de fazer arte, o capeta se ferrou de novo. Os moleques, vendo o burro, resolveram montar nele. E montaram uns três ou quatro duma vez, metendo os calcanhares na barriga dele pra ele andar. Mas acontece que ele tava paralisado de medo e não dava conta de andar. Os meninos ficaram com raiva. Achando que o burro tava empacado, pegaram um punhado de capim seco, puseram debaixo do burro e atearam fogo, sapecando até o saco dele. Como o danado tava paralisado e não saiu do lugar, um dos moleques falou: "Ave Maria! Que burro mais lerdo, sô! Já que esse burro não anda nem com fogo na barriga dele, vamos pegar a forquilha do estilingue e socar no cu dele."
Novamente a costumeira gargalhada, que era o indicador do final da história, misturou-se à algazarra dos netos.

Alguns minutos depois, os moleques estavam trepados na goiabeira, cortando forquilhas para seus estilingues.

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