domingo, 3 de maio de 2015

VERGA-TESA

                                              VERGA-TESA
“A linguagem judicial instrinsecamente assume uma discrepância nítida entre o subjetivismo verbal das partes num processo e a objetividade do julgamento.”
                                                                                                                                    Mikhail Bakhtin
Duas coisas me impressionaram muito quando ela entrou em minha sala; a espuma pelos cantos da boca, que ajudava a compor uma fisionomia angustiada e furiosa e o bucho, completamente impertinente à sua idade. Eu não daria menos de sessenta a ela. A mulher desconhecia ou desconsiderava qualquer regra de boa conduta dentro de um juizado. Parecia mais um bicho em investida, uma rês braveza, dessas que se via pelo sertão nos idos daqueles anos, de cabeça inquieta como a procurar algo a espetar com os cornos.
O policial do plantão procurava contê-la como se, de fato, um bicho fosse. “A senhora está na sala do juiz, ele é o juiz, respeita!” Estupefato, observava eu a cena. Parecia uma das cabras nervosas de meu curral, aquelas que não se afeiçoam ao tratador e reagem com uma cabeçada a qualquer tentativa de aproximação. Seus olhos eram assim, ameaçadores. “Juiz, o cabrunco! O que é meu é meu, mando eu! Nem juiz e nem padre!”
São Cristovão foi a primeira capital de Sergipe. Alcançou ares de corte e cidade moderna no período colonial. Hoje está acoplada à grande Aracaju. Provinciana, sim, e quem anda a pé por aqui pode ver os vestígios daquela época áurea. Paralelepípedos e igrejas seculares, ruas estreitas e casas coloniais formam seus históricos cartões postais. Nos anos 70, fui o juiz de paz da comarca.
Doutora Cecília era a promotora. Um verdadeiro contraste com a paisagem local. Adianto que apesar dos justificáveis ciúmes de minha esposa, eu não comi e nem soube quem o fizesse. Tinha um rosto lindo, desenhado sobre a pele clara de quem tem o sol como aliado. Cabelos lisos e escuros, sempre presos a um penteado sóbrio e austero que lhe expunha as orelhas delicadamente ornadas por um par de brincos igualmente sóbrios, mas que lhe emprestava a mesma delicadeza que exalava da água de cheiro que vinha de seu pescoço. O vermelho suave do batom sempre a cobrir os lábios que enclausuravam dentes brancos e sadios.
Mas era um entojo a mulher! Ôh, gênio da bexiga! Sabe aquela expressão de nariz enrugado, de gente que parece que está com bosta no bigode? Aquela cara de quem tomou remédio amargo e o gosto foi se alojar lá no fundo da língua? Pronto! Era o retrato da mulher. Não existia quem não tivesse medo de aproximar dela. Pudores mil se via até nas roupas, sempre impecáveis no trato do ferro. Nem um sorrisinho, nenhuma brincadeira, nenhuma proximidade, absolutamente nada de intimidade. Ôh, mulher sem lado!
“Juíz, o cabrunco!” me assustou. “O que é meu, é meu!” é coisa de quem está sendo roubado. Mas que diabos podiam estar querendo tirar duma infeliz como essa? Tive que gritar com a mulher. Que baderna é essa na minha sala? A senhora quer que eu lhe tranque na cadeia? A mulher estancou, olhando de soslaio para o polícia que a segurava pelo braço. O breve silêncio que se fez, permitiu que eu retomasse a fala. O que está acontecendo aqui, cabo? É essa doida, doutor. Ela disse que quer falar com o senhor e foi invadindo assim.
Aparentava uns sessenta anos. Magra e desnutrida, olhos cadavéricos, pele quebradiça e maltratada. Cabelos desalinhados, amarelados pela poeira da caatinga, inutilmente amarrados com um laço de trapo qualquer. Sandália de couro cru nos pés sujos e sem trato indicavam uma possível caminhada longa até o fórum. Eu despachava com a promotora um caso complicado que vinha tirando meu sono. Doutora Cecília olhou para mim como quem não acreditava no que estava vendo acontecer. Indignada, inquiriu-me com os olhos e franziu o nariz como a pedir-me uma atitude. Ter o seu trabalho interrompido por uma do povo era inadmissível. Pronto!
Minha senhora, sente-se aqui. Cabo, busque um copo dágua pra ela. A coitada tá espumando os cantos da boca. Se acalme! Pronto! Enquanto o cabo providenciava o que mandei, a promotora juntou os papéis e quis levantar-se, mas eu a impedi. Pedi que ficasse e acompanhasse o caso. Está mais calma? Me diga, a senhora está grávida? Estou sim, doutor. Ôxe, emprenhando nessa idade! Quantos anos a senhora tem? Não é por isso que eu tô aqui não, doutor. Então, me diga, o que é que está lhe causando esse aperreio todo? É o meu marido, doutor. Se o senhor não der um jeito nele, eu vou furar ele de faca. Pronto! E porque a senhora quer fazer isso? Olhe, macho, eu sei que o senhor tem os poderes de me trancar na cadeia, mas escute o que estou a lhe dizer, homem nenhum vai comer o meu cu.
O cu apareceu justamente no momento que meus olhos e os da promotora estavam fixos um no outro, espantados de um juiz ser chamado meramente de macho. A doutora arregalou os olhos de tal forma que me lembrou uma coruja e o seu rosto branco ficou vermelho como as patas do guaiamum bem cozido. Acho que ela quis levantar, mas as pernas não quiseram e nem a boca quis fechar e assim ficou. As veias do meu pescoço engrossaram de um jeito que eu pensei que iam arrebentar tentando segurar o riso. A pobre pudorada promotora quis não olhar pra mim, mas o pescoço não quis desviar não, parecia que petrificou de vergonha. Antes que eu arrebentasse em gargalhadas, levantei num ímpeto e bradei com o cabo que já ia fugindo pela porta para rir do lado de fora.
Que diabos é isso, cabo? Como é que você me deixa uma coisa dessas? Eu, doutor? Eu, doutor? E ambos tentávamos não olhar para a promotora. A senhora pode me explicar o que está falando, minha senhora? Mas com um pouco mais de educação nessa língua. A conversa é curtinha, macho, e só vou falar uma vez, depois é problema do senhor que é a lei, se quiser evitar uma desgraça. De uns meses pra cá, meu marido, um homem já de mais de sessenta anos na venta, cismou de me comer até três vezes por dia. Até aí tá no direito dele, tanto que tô prenha. Mas, agora, o cabra cismou que quer comer o meu cu e se ele fizer isso, vai morrer na ponta da minha faca. E teje o meu dito. Tal qual dissera, deu-me as costas e passou pela porta.
Usando toda minha reserva de seriedade e compostura, desviando ainda o olhar da promotora, mandei que o cabo acompanhasse aquela mulher até em casa e trouxesse o marido dela até o fórum, imediatamente. Precisava evitar a tragédia.

Quando o homem chegou, mal entrou em minha sala e já foi dizendo que a história do cu era mentira.  E o senhor está comendo sua senhora quantas vezes por dia? Duas, doutor. Às vezes, três. Todo dia? Sim, senhor. Todo santo dia? Nos dias santo também, doutor. Reclinado em minha cadeira, olhei para o cabo, ele olhou para mim e fizemos silêncio por uns instantes. Afinal de contas, o que é que o senhor come? Eu vou lhe trazer uma muda da raiz, doutor, e o senhor vai ver só.  

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Os Meninos do Grupo

Os meninos do grupo
"enfurecidos os meninos apearam e aplicaram-lhe com um pau encontrado/a ação do coito/pobre coitado"
O Pasto do Rebanho

Minha esposa estava servindo o almoço às crianças, eram nove ao todo, três meninos e seis meninas. Quatro delas, eram os meus filhos, os demais, sobrinhos. Eram nove, mas pareciam uns cinqüenta.  Meu pai, balançando-se numa rede armada na área, observava a algazarra da meninada. Minha esposa chamou-o para servir-se, mas ele recusou dizendo: "Eu, hein?! Serve essa tropa primeiro, até parece a merenda dos meninos do grupo."
De fato, o barulho provocado pela meninada, fazia-os parecer um batalhão. Gritos, choros, risadas e o bradar de alerta das outras mães que também se movimentavam em torno do fogão caipira, ao lado da minha esposa, ajudavam a deixar o ambiente mais cheio. Algumas das crianças já estavam sentadas à mesa. Outras, os pequenos, sentados no chão da área, com o prato entre as pernas e a colher na mão. "É pra comer tudo, viu?", recomendava uma das cunhadas, "sem derramar comida no chão", aconselhava a outra.
Meu irmão trouxe da geladeira uma garrafa de coca-cola e a abriu com o cabo do garfo, provocando um estouro ao destampear a garrafa. A criançada vibrou com o estampido. Não demorou para que algumas delas tentassem imitar o gesto do tio e derramassem o refrigerante pelo forro da mesa e pelo chão. Uma das mães acudiu: "Iiih! Olha só o que vocês estão fazendo!" A esta altura já havia arroz esparramado pelo chão inteiro, misturado com refrigerante e com frutas. "Ai, meu Deus! Quem é que aguenta isso?"
Meu pai, que observava a "Torre de Babel", bebericando um copo de vinho tinto, levantou-se da rede e interveio: "Deixa os meninos. Deixa eles fazerem a bagunça deles. Criança é assim mesmo, nem o capeta pode com eles. Aliás, a coisa que o capeta mais tem medo, é de menino. Deixa eu contar uma história pra vocês..."

Meu pai é um homem forte, um pouco gordo, aliás, barrigudo. Resultado de vários anos de cerveja. Gosta de contar histórias e dá longas gargalhadas ao concluí-las. Com seu gesto natural para ajeitar a bermuda à cintura, aproximou-se da mesa e puxou uma cadeira. Pegou um prato, serviu-se, e com o garfo na mão começou a história: "Vocês sabem qual a coisa que o capeta mais tem medo no mundo? Que é de criança eu já falei, mas vocês sabem por quê? Por que um bando de crianças juntas, nem o capeta aguenta. Dizem os antigos que quando o sino do grupo bate para o recreio ou para a saída dos alunos, o capeta fica paralisado de medo.
 Uma vez, o tinhoso tava andando pelo mato procurando um para atentar, quando, de repente, ele escutou um sino de escola e junto a gritaria da meninada. Tinha acabado a aula naquela hora e os meninos saíam correndo. No susto, ele ficou paralisado. Pra poder escapar, ele se transformou em uma bosta de vaca e ficou ali, quietinho esperando a pirralhada passar. Os moleques, todos de estilingue na mão, aproveitavam a volta pra casa pra ir caçando passarinho.
Naqueles tempos, a molecada voltava pra casa era  a pé, morava na roça e andava era muito pra chegar em casa. Só que naquele dia a meninada não avistou uma rolinha sequer para poder matar. Como não tinha passarinho nenhum, os moleques olharam para a bosta de vaca e falaram: "Ah! Já que não tem passarinho mesmo, vamos aproveitar pra treinar a pontaria naquela bosta." E deram tanta pedrada no coitado, que o danado nunca mais quis passar por aquele lugar.
A essas palavras seguiu a gargalhada prazerosa do velho, misturada com a ovação dos netos que escutavam a história atentamente. Satisfeito com a reação da plateia, o velho continuou: "E tem mais uma,
escuta só. Num outro dia, depois que o chifrudo melhorou das pedradas, ele pra poder atentar um encomendado, tinha que passar justamente perto do grupo de novo. Só que desta vez ele se preveniu e resolveu passar por lá no horário entre o recreio e a saída, que era para não correr risco de encontrar criança em bando. Mas o que ele não sabia é que, na hora do recreio, um bando de moleques resolveu cabular a aula e fugiu da escola pra ver quem matava mais passarinho. O capeta, que já tava com medo, quando viu os meninos, todos de estilingue na mão, paralisou de medo, só que desta vez, ao invés de se transformar em bosta de vaca, ele se transformou num burro velho, supondo que os meninos iam ter dó do burro e deixá-lo em paz. Mas como criança não tem jeito, pois eles sempre acham uma maneira de fazer arte, o capeta se ferrou de novo. Os moleques, vendo o burro, resolveram montar nele. E montaram uns três ou quatro duma vez, metendo os calcanhares na barriga dele pra ele andar. Mas acontece que ele tava paralisado de medo e não dava conta de andar. Os meninos ficaram com raiva. Achando que o burro tava empacado, pegaram um punhado de capim seco, puseram debaixo do burro e atearam fogo, sapecando até o saco dele. Como o danado tava paralisado e não saiu do lugar, um dos moleques falou: "Ave Maria! Que burro mais lerdo, sô! Já que esse burro não anda nem com fogo na barriga dele, vamos pegar a forquilha do estilingue e socar no cu dele."
Novamente a costumeira gargalhada, que era o indicador do final da história, misturou-se à algazarra dos netos.

Alguns minutos depois, os moleques estavam trepados na goiabeira, cortando forquilhas para seus estilingues.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Pão com torresmo

PÃO COM TORRESMO

No pão de açúcar
De cada dia
Dai-nos Senhor
A Poesia
De cada dia

Oswald de Andrade



Padaria sempre foi o negócio da família. Minha foto mais antiga, uns três anos, com a carinha aborrecida e o olho esquerdo semi-fechado, camisa de mangas curtas, calção de algodão, meias e sapatos de cadarço, ao lado do Carlinhos, meu irmão mais velho, sobre a grama da Avenida Goiás, fora tirada em frente à Panificadora Pão Gostoso. Papai, ao chegar do interior com esposa e Três filhos, se empregou como ajudante de padeiro e aprendeu a profissão.
Algum tempo depois, não muito, papai já era sócio com a mãe e o irmão mais velho em sua primeira padaria. Cresci com o cheiro de pão fresco no nariz, numa época em que ser dono de padaria conferia aos proprietários o status de pequenos ricos.
“Padaria é negócio pra burro! Negócio de português.” Alguém sempre dizia e todos concordávamos. Levantar às três horas da manhã para contar os pães, enquanto mamãe preparava o café e abria a porta aos primeiros fregueses, foi a rotina a que me vi exposto antes dos doze anos. Papai geria tudo. Produção interna, externa, compras de mercadorias, lenha para o forno, cestas, balaios, atendia aos atacadistas, controlava os carros, as entregas e até o peso do pão.
Aos quarenta, papai já branqueara os cabelos, mas era um touro o homem. Força muscular indiscutível, rachava toras de angico à cunha e marreta feito um baiano da roça. Até promovia, vez por outra, uma apostinha para ver quem rachava um angico trançado mais rápido. Mas não era ao labor excessivo que atribuía sua grisalhês. “Eu ainda mato um padeiro! Ô, raça! Ôô, raça!” Para ele não havia dúvidas, eram os padeiros que lhe encurtavam os anos. O Chico bebia, o Bodão não acordava, o Zico faltava e outro queimava o pão. “Eu ainda mando todo mundo pra rua.” Os padeiros já haviam se habituado com a ameaça, mas um dia ele a cumpriu; demitiu uns dois ou três logo de manhã. Recontratou de tarde.
E foi nesse ambiente que eu cresci, vendo padeiro matar serviço, substituindo-os às vezes, rachando lenha, descarregando farinha do caminhão, resmungando para atender ao balcão, assistindo os ataques de nervos do meu pai e sentindo o cheiro de pão fresco. Ah! O cheiro de pão fresco...
Dentro daquela padaria tudo acontecia.
“Padeiro que não bebe não acerta a mão.” Era o bordão da confraria. Além do mais, naquele dia, o Vila Nova tinha metido dois a zero no Goiás. Todo mundo no boteco.
__ Ô, tia! Frita um torresmim pra nois e desce outra que essa aqui já secou.
__ Se tiver pele de torcedor do Goiás aí, pode fritar também que nois traça.
__ Torresmo, cachaça e canja de periquito não faz mal a ninguém.
__ Pra ninguém do tigrão, é claro. Dois a zero! Iiirráá! É hoje!
               
                  *     *   *

                Papai caminhava agitadamente pra lá e pra cá, dentro da padaria. “Cadê essa turma? Ô, raça! Ô, raça! Ôô, raça! Eu ainda mato um!”
                Papai, quando nervoso, ficava vermelho feito um peru. Aos berros mandou-me pegar uma saca de farinha e jogar na masseira. Estava tudo atrasado. Precisava “rodar” a massa. Tinha acabado de acrescentar fermento à fécula, quando Bodão chegou com os outros três. Fiquei aliviado e pensei em voltar para dentro de casa, mas papai disse que não. Voltou ele, apalpando o pescoço e o peito como quem ausculta o coração.

 *    *    *

                A massa rodava na masseira e a masseira girava com a massa. Bodão, o mestre, via a massa rodar e a masseira girar. O mundo também girava. O Serra Dourada, lotado, girava, as paredes giravam, as rodadas de cerveja rodavam, a cabeça de Bodão girava e o seu estômago se revoltou. E lá se foi novo ingrediente na massa.

           *    *     *


Estava tudo atrasado. Dessa vez não teria perdão. Papai mataria mesmo! Carregaram Bodão para a estufa, debaixo do forno. Ele bodeou.
Com um padeiro a menos, tudo atrasado, o jeito era ajudar. Mas o que fazer da massa com o inusitado recheio? Massa para mais de sessenta bolas é mais de cem quilos. Quase dois mil pães! O jeito era esconder a massa, mas não tinha onde e massa com fermento cresce e esparrama. Daria para encher um quarto inteiro. Papai descobriria, infalivelmente.
__ Tempo pra fazer outra, também não dá.
__ Dessa vez o Bodão tá é morto.
__ Só se...
__ Só se o quê? O quê?
__ Só se a gente tocar o serviço assim mesmo.
__ Ocê tá é bêbado!
__ E amanhã nois tamo é morto. Deixe d´nojo que pão é assado com mais de duzentos grau. Mata qualquer microbe.
                Ante o argumento de salvar a vida do mestre de serviço... tocaram.

                             *      *      *



Dois dias depois, aqueles velhos fregueses de todas as manhãs, retornavam à padaria e se recusavam a levar o pãozinho comum. Insistiam naquele tal com torresmo. A novidade acabou virando mania.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Um Caso de Amor

Caso de amor
Conheceram-se pela internet, nestes sites de relacionamento adulto. O perfil dela casara-se muito bem com os anseios dele. Marcaram em um café na Alameda Santos.
Sentado à mesa, com uma caneca fumegante de vinho quente às mãos, pode vê-la entrando pela porta de vidro. Gentilmente ele puxou a cadeira, oferecendo-lhe acento. Ela agradeceu e quando o azul de seus olhos contemplou o negro dos dele, a imantação se fez. Houve uma identificação, um magnetismo que fez com que gravitassem um na órbita do outro.
 “Vinho quente?” As noites paulistanas no meio do ano costumam ser frias como o misto de medo e excitação que a envolvia. Acenou um sim com a cabeça e procurou conter a respiração que insistia em ofegar. Ele chamou o garçon, que tirou da bandeja uma caneca, colocando-a sobre o descanso à sua frente. Ela aproveitou o cheiro forte da canela, conduzido pelo vapor, para respirar fundo fechando os olhos e acalmar-se. “Adoro vinho quente.”
Já conhecia-lhe as preferências. O gosto musical, os discos favoritos, os autores de cabeceira, alguns costumes domésticos, os anseios sexuais, as revelações no perfil do site e o principal; as fantasias, força motivadora desse encontro.
Disposta a continuar? Por que não? É indiscreto perguntar se é casada? É. Tem medo de se arrepender? Só do que não faço. Você é peludo? Como? Pelos no peito, você tem? Não muito. Isso é problema? Não. Quer recuar? Não depois de ter chegado até aqui. No meu carro? Eu no meu. Separados? Garagem para dois. Nervosa? Já passou. Você está tremendo. Está frio. Não imaginei que fosse tão bonita. Obrigada. Já  fez isso, antes? Não, vai ser a primeira vez. Já teve outras experiências? Nada comparável a isso. Acha que vai ser legal? É o propósito. Então? Vamos terminar o vinho? Prefiro não. Ansioso? Um pouco. Trouxe tudo? Sim. Vamos?Vamos.
Passava das nove quando a recepcionista do flat, em Moema, registrou a entrada do casal. Pouco mais de três horas depois, acertaram a conta e saíram. Estacionaram os carros próximo ao Ibirapuera e iniciaram, lado a lado, um caminhar pelo calçadão externo do parque.
 Adoro esse vento gelado no rosto. Eu também gosto. Meu cabelo está um pouquinho molhado.Você vai congelar. É só nas pontas. Se eu te abraçar você se aquece, posso? Aqui, na rua? É tarde, não há ninguém.Você quer me abraçar? Você não precisa. Quero sim. Aliás, é tudo que eu quero agora.
Que fazia ali, abraçada a um homem que, há quatro horas antes, sequer conhecia? Um completo desconhecido a quem entregara e compartilhara segredos que a nenhum outro permitira saber, nem mesmo aqueles a quem amara?
Como fora capaz de revelar tanto a uma mulher e que sensação era aquela que o envolvia de forma tão ardente, despertando nele um desejo quase paternal, mas incestuoso, de proteção?
Você é casada? É a segunda vez que você quer saber isso. É que... Faz tanta diferença assim? Talvez não. Outra hora a gente fala sobre isso. Então, nos veremos de novo?   Você quer? Claro. Fiquei com medo de você ter se arrependido. Não, de forma alguma. Estou feliz. Sem culpa? Por que ficaria?
Debruçado sobre seu carro, acompanhou o dela até que se perdesse de vista. A noite paulistana nunca fora tão bela.
 Entrara no site e viu que o nick dela fora deletado. Ficou apavorado, não suportava a idéia de não mais encontrá-la. Dependia, agora, exclusivamente do contato dela. Ela tinha o número do celular, ele não. Passou a não desgrudar do telefone. Estava apaixonado. Ridiculamente apaixonado e feliz. Os dias se arrastavam intermináveis e sem um email sequer.
Finalmente, uma semana depois, uma chamada de número confidencial. Olhou para o aparelho, batimento cardíaco alterado, sabia que era ela. Pressionou a tecla e esperou o som da voz. “Quer viver tudo aquilo de novo?”
Novamente deixaram o flat no início da madrugada. Estavam com fome e, para quem gosta de massa, no Bexiga estão as melhores cantinas do Brasil, o canelone  mais suculento, acompanhado de molho, violino e sanfona italiana. Que mundo belo!
Sentiu minha falta? Ao ponto de escrever um poema para você. Jura? Deixa eu ver. Nem morto, ficou ridículo. Não é para mim? É. Então é meu. Mas é ridículo. Eu decido isso, quero ver. Se faz questão...
 O que achou, ridículo não? Concordo, é ridículo mesmo. E, também, tudo que uma mulher quer ver um homem fazendo por ela. Então, você gostou? É lindo! Fala do que fizemos. Eu nunca pensei que encontraria alguém com quem pudesse dividir isso. Por que não me ligou antes? Estava cortando alguns laços. Cortou? Alguns são incortáveis. Eu também nunca faria o que fizemos, com outra pessoa. Por que não, se fez comigo? Você deve ser ou já foi casada e mesmo assim, nunca fez isso com seu marido. É como se a condição para viver essa experiência dependesse simplesmente de existirmos eu e você. Sem você, sem isso.  Sabe o que me ocorreu? Diz. Quero voltar ao flat. Agora? É. Tudo bem? Claro, é que assim, duas vezes, no mesmo dia...
O café-da-manhã, no flat, era servido até as dez. Foi quando acordaram. Ela apavorada com o horário. Depois do banho rápido, desceram juntos até o estacionamento no subsolo.
Deixa um número para eu te ligar. Não posso, ainda. Mas... Eu ligo. E se não ligar? Eu ligo, prometo. Seu email... Por ora, não. É perigoso para mim. Então, escreve. Eu ligo. Agora, deixa eu ir. Fica. Não posso, preciso ir. Não vá. Tchau, a gente se fala. Eu ligo, prometo. Hoje? Talvez. Como talvez? Liga hoje. Hoje eu não sei. Amanhã. Promete? Amanhã. Depois também. Vamos nos ver amanhã. Ver não dá, mas eu ligo. Quero te ver amanhã, preciso te ver amanhã. Está bom, vamos ver. Vamos ver ou vamos nos ver? Veremos. Agora, deixa eu ir. Fica. Tchau. Não.
Impotente, ficou estático vendo o carro sair lentamente pela garagem e ganhar a rua, depois fez o mesmo. Trânsito caótico, tão típico da capital paulista, emperrou na segunda quadra. Reconheceu o carro dela à frente. Ela abriu a porta, desceu do carro e veio lentamente caminhando ao seu encontro. Ele desceu, num ímpeto e estancou de pé, em meio ao famoso trânsito paulistano. “Só posso estar perdendo o juízo.” Assistiram, os paulistanos, desentendidos, à inusitada cena de um cálido beijo de amantes alheios ao caos diário.

Desde então, não a viu mais? Não, aquela foi a última vez. Quanto tempo? Quatro meses. Como está se sentindo? Como se nada mais importasse. Como se o chão tivesse sumido, como se eu não existisse mais, como se eu não quisesse mais existir. E a fantasia? O que é que tem? Não a realizou mais? Claro que não. Você se sentia bem fazendo isso, seja lá o que for? Muito, muito mesmo. Quer me contar sobre a fantasia? Ah, isso nunca!

segunda-feira, 10 de junho de 2013

El Mariachi

EL MARIACHI
                                                                 “É preciso perdoar os chatos. Eles são de uma ingenuidade perene.”
                                                                                                                                                  Oswaldo Montenegro

                Era um homem curioso o retratista. Alcoólatra, era comum vê-lo passando de lambreta pela avenida, fazendo, não intencionalmente, mas desequilibrado pelo álcool, manobras radicais provocando freadas bruscas de carros e arrancando exclamações de espanto e assombro por parte dos transeuntes. Perambulava bebendo de bar em bar, com alguns discos de mariachis mexicanos.  Onde chegava pedia para tocar o disco e criava a maior confusão se não o atendessem. Um bêbado, enjoado às vezes, engraçado outras.
                Seu ofício era exercido numa lojinha de fotos para documentos, numa pequena sala comercial com frente para a principal avenida do bairro. Morava dentro da lojinha. Sua cama era um colchão improvisado detrás do biombo que servia de fundo para as fotos. Do outro lado da avenida, quase defronte ao “Foto Estela”, ficava a padaria. Geralmente, quando ele acordava, do balcão onde eu trabalhava podia vê-lo atravessar a avenida em passos trôpegos e vir em busca de um café amargo.
  *     *       *

                Um dia acordou com alguém batendo à porta, para tirar umas chapas. Sentou-se no colchão, levou as costas da mão direita à boca, limpou a saliva dos cantos e levantou-se cambaleando, sentindo o gosto do próprio fígado na boca. Com dificuldade ergueu a porta de aço que esquecera destrancada ao chegar de madrugada e encarou o cliente, fechando o olho esquerdo e cobrindo o direito com a mão para tapar o sol.
                __ Tá querendo o quê a essa hora? Indagou o fotógrafo.
                __ Umas chapas, Seo Zé. Eu preciso tirá uns documento.
                __ Você sabe se eu me chamo Zé, pra me chamar disso? Vá tirar seus retratos noutro foto. Resmungou o retratista, com um arroto amargo.
                Todavia, dada a insistência do cliente, mandou que esperasse um pouco e foi lavar o rosto numa pequena bacia de alumínio. Voltou enfiando a camisa amarrotada por dentro da calça e levantou de vez a porta, bronqueando com o freguês para ajudá-lo. Na verdade só o atendeu porque precisava de dinheiro para comprar seu “combustível diário”. Ao ajeitar o rapaz no tamborete em frente ao biombo, que era a divisória do seu quarto, percebeu que este era um matuto acaipirado de dar dó. Mal intencionado, foi arrancando-lhe algumas respostas até descobrir que o bocó só havia tirado retrato uma vez na vida e há muito tempo. Na hora de bater a chapa perguntou-lhe como iria querer.
                __ Você quer tirar o retrato com dor ou sem dor?
                __ Como assim? Indagou o inocente.
__ Sem dor é mais caro, com dor é mais barato, mas você fica ruim uns dois dias, é verdade que quase não dá pra andar, mas também não é tão ruim assim. Explicou ao jovem lavrador.
__ Ah, então eu vou querer sem dor. Depois de amanhã eu tenho que tá em casa, num posso ficá parado aqui de jeito nenhum. Explicou o freguês.
A partir disso, ele teve o melhor tratamento profissional possível àquele recinto. O fotógrafo deu a ele dois comprimidos de engov, já desembalados e um copo dágua, dizendo que era o único remédio do mundo que tirava dor de retrato. Depois não deixou que o matuto arredasse o pé do local até que as fotos ficassem prontas. Em seguida, entregou meia dúzia de retratinhos ao cliente que olhou a miniatura de seu rosto no papel e sorriu satisfeito.
__ Gostou? Se iluda não que eu é que melhorei essa cara sua, disse o profissional, sorrindo. Tome, fique com mais duas de brinde e vá-se embora que tenho mais o que fazer.
Mal viu o pobre lavrador afastar-se, abaixou a porta e saiu em busca de um botequim para rebater a ressaca.
Quando retornou, apareceu bêbado e mal humorado. Haviam lhe insultado no bar e ele voltou para pegar uma garrucha velha de dois canos que trazia guardada entre seus cacarecos.
 Enquanto ele se esforçava para levantar a pesada porta de aço, aproximou-se dele uma senhora de meia-idade com um rádio estragado à mão, procurando alguém que o consertasse. Olhando o interior do diminuto cômodo, que era a morada e o estúdio fotográfico, sem identificar o tipo de comércio ao qual se dispunha o recinto, a dasavisada senhora indagou ao tirador de chapas:
__Escuta meu filho, é aqui que conserta rádio?
 O fotógrafo bruscamente tirou-lhe o rádio das mãos, arrancou a tampa do compartimento de pilhas, meteu uma chave de fenda no interior do aparelho e seguiu destroçando a fiação.
Com ironia bradou com a mulher: __É aqui mesmo! Olha lá fora o que está escrito. Conserto rádio, não é? É aqui mesmo! Pronto! Está consertadinho, pode levar.
Com a mesma rispidez devolveu o rádio à pobre mulher, que apavorada foi procurar os seus direitos, rogando ao técnico em eletrônica todas as pragas que aprendeu ao longo de seus anos.

O incidente fez com que ele esquecesse o que viera procurar. Aborrecido saiu novamente, retornando à sua via sacra de todos os dias. No primeiro bar foi posto para fora, assim que pediu para ouvir "Los Mariachis". Protestou, mas saiu aos empurrões. No bar seguinte, encontrou uma dupla sertaneja, destas de bar de subúrbio, cantando músicas de Leandro e Leonardo. Incorporou-se a eles, compondo um trio. Muitas cervejas, doses de pinga e pedaços de frango assado foram consumidos, até que socou a cara de um dos cantores, por dizer que Mariachis era coisa de corno. Novamente foi posto para fora, mas desta vez levou consigo uma garrafa de caninha e um dedo quebrado e bastante inchado.

Refletindo sobre os acontecimentos, achou injusto o tratamento que estava recebendo das outras pessoas. "Ora essa! Estão pensando o quê?... Eu sou um homem bom... Não faço mal a ninguém, só bebo minhas cachaças... E pago com meu dinheiro... Estão pensando o quê?" A reflexão fê-lo decidir-se a não ser mais saco de pancadas gratuitamente e resolveu partir para o contra-ataque.  "Agora chega. Estão pensando o quê?", repetia insistentemente.

Sem saber exatamente como, deu-se conta de estar dentro de um ônibus, segurando na haste de ferro que separa o motorista dos demais passageiros. O Chacoalhar do ônibus deixou-o enjoado. Trêmulo, no timbre característico dos bêbados, resmungava sua ladainha: "Estão pensando o quê?" Num solavanco mais forte, descontente, advertiu ao motorista: "Pô, mais devagar com essa carroça, senão eu vou deixar uma caixa de cerveja e um frango assado nesse ônibus."
 O Cobrador, desdenhosamente, disse que podia deixar que ele levaria para casa. Mal acabou de dizer e o fotógrafo abriu a goela entregando a encomenda ao cobrador. O mal cheiro invadiu o ônibus provocando um mal estar coletivo. Em meio aos resmungos e protestos dos usuários, o retratista fixou seus olhos avermelhados numa mulher que o olhava com nojo e desprezo. "Sabia que a senhora é uma mulher muito feia?", perguntou o nauseante. "Bêbado desgraçado! Fedorento!", reagiu a mulher. "Tudo bem, só que amanhã eu estou bom." respondeu consolado, mirando as demais pessoas. "Estão pensando o quê?... Da metade do ônibus para trás, só tem corno e mulher safada, do cobrador pra frente, só tem biba e homem frouxo.” Rugiu desafiando os presentes.
 Nisso o motorista que já estava irritado com o mau cheiro, ansioso por chegar ao ponto final para limpar a imundice do bêbado, numa manobra brusca encostou o ônibus à guia e partiu para cima do bêbado:
__Repete isso, seu desgraçado! Repete! Quem é corno aqui?
__Agora eu já não sei, com essa freada você misturou todo mundo. Respondeu com as mãos do motorista apertando-lhe o colarinho, antes de levar o primeiro soco, que estufou-lhe o olho direito. O segundo soco foi amortecido pela turma do "deixa disso", que devolveu o motorista para o seu lugar, enquanto tentavam tirar o pobre infeliz de dentro do ônibus. Não conseguiram. O chato agarrou-se a um dos bancos e não houve quem o fizesse soltar-se. "Já que ele não desce, desço eu." Disse a mulher muito feia. "Vocês deviam era deixar o motorista quebrar a cara dele." Finalizou vingando-se, a dita.

Movido por um estímulo novo, o fotógrafo levantou-se para seguir a mulher, mas tropeçou e caiu de peito no assoalho do ônibus. Uma alma mais caridosa dispôs-se a ajudá-lo: "O senhor tem que segurar este ferro, ó." Orientou o samaritano, levantando o homem. "Eu não vou segurar nada não. Estão pensando o quê? Me batem, depois vem pedir favor? Não faço não. Estão pensando o quê? Reagiu o ébrio. "É pro senhor não cair.", explicou o passageiro caridoso. "Seguro não. Faço nada pra vocês não. Se quiserem, que arrumem outro filho duma égua pra segurar isso."
Tornou a falar antes de chegar aos degraus da porta do ônibus: "Abre essa porta, que vai descer um corno." Disse de si próprio. O motorista, irritado e interessado em se livrar do estorvo, encostou o ônibus, acionou a válvula de ar comprimido que abre a porta e pelo retrovisor interno viu o retratista gritar: "Agora leva o resto".


Machucado, cheio de hematomas, porém anestesiado, seguiu cambaleante, com a correia da máquina fotográfica atravessada ao ombro, cantarolando: "Sy Adelita sy fuera com otro, la seguiria por tierra y por mar..."
           Era incorrigível esse retratista.


segunda-feira, 3 de junho de 2013

O Choque

O Choque
Seu João, o Ceará, era um dos fregueses que chegava logo pela manhã à padaria. Àquela época já ultrapassara os oitenta. Cabelos surpreendentemente fartos e totalmente tingidos de branco pelo tempo, vinha ele, a passos trôpegos, amparado por uma bengala de cabo de madeira envernizada, comprar meia dúzia de pãezinhos para os netos. Caminhar pela manhã lhe era obrigatório, sob pena de atrofia do nervo ciático que um derrame lhe impôs reduzindo-lhe consideravelmente os movimentos. À cabeça trazia, invariavelmente, o característico chapeuzinho de couro nordestino. O sotaque, embora já quase sublimado pelo contato com a fala goiana, ainda podia ser notado num prolongado "arretaaado" ou "aperreado que só vendo".
Como a maioria dos velhos que conheci estando detrás do balcão, sentia enorme necessidade de conversar com quem lhe desse atenção, revelando a impaciência dos familiares, já agastados com as manias e a dependência peculiar de quem já viveu quase a totalidade de seus dias. Admito que às vezes ele se fazia inconveniente, insistindo em conversa nostálgica sobre seus dias de inabalável saúde e as proezas de que fora protagonista, em momentos em que eu precisava atender a outros fregueses. No entanto, sua presença sempre me fora agradável. Gostava de ouvi-lo contar suas reminiscências, as quais, guardei na memória sem perceber.
“Aqui não se tem esse costume não. Mas nos sertões do nordeste isto é uma tradição conservada até hoje. Beber o defunto é encomendar a alma dele a Deus, nosso senhor. Eu lembro de um caso que aconteceu com um vizinho nosso de fazenda. Ele respondia por nome Ataíde Lima. Vaqueiro bom, respeitado por tudo quanto é canto. Era chefe de tropa de transporte. Naquele tempo, caminhão quase que não existia. Carga a gente transportava era no lombo das mulas. saíamos com tropa de oitenta a cem mulas, tudo carregada. Ôxe, que aquilo era bonito de se ver!
 As mulas da frente eram mais enfeitadas do que árvore de natal e na frente só iam as ensinadas. Era chamar pelo nome delas e dizer a direção, que elas obedeciam feito gente inteligente. Ataíde de Lima era chefe de tropa. Serviço dele era recomendado por todo mundo. Vinha gente de longe buscar ele pra transportar uma colheita de milho, feijão de corda... Por isso era ele muito considerado e amigos não lhe faltavam.
Corria o fevereiro de trinta e seis. Calor era de abrasar. Foi quando na fazenda de papai, chegou mensageiro avisando a morte de "seu" Ataíde de Lima. A notícia deixou todo mundo desentendido. Ele era homem forte, vigoroso. Como é que podia aquilo? Notícia era de que tinha morrido do coração. Ataque cardíaco. Em casa de papai, nós éramos oito irmãos; cinco homens e três mulheres. Peão sempre tinha era muito. Quando notícia chegou, papai mandou a peonada se ajuntar e fomos todos prestar nossas condolências ao amigo.
Chegando na casa de Ataíde, mamãe com minhas irmãs, se ajuntaram com as outras mulheres da casa e iniciaram a cantoria. cantoria sentida de sofrimento que encomenda a alma do defunto. Papel das mulheres no velório, reza a tradição, é o da cantoria. Cantoria de oração. Vela pelo defunto. Os homens, por sua vez, bebem o defunto. Beber o defunto é beber pela alma dele. Oferenda de pinga aos santos, que agradecidos abrem o caminho no mundo desconhecido. Enquanto as mulheres fazem os seus sacrifícios nas ladainhas santas, os homens fazem os seus, vertendo a aguardente.
Pois o velório assim se procedeu. Muitos galões de cachaça da boa, pinga de alambique queimada no prato com casca de fruta qualquer, foi sendo consumida com desgosto e cantigas e choros dos parentes e amigos de seu Ataíde. Sertão de Caicó deixei faz tanto tempo que memória já nem me lembra. Mas fazenda de seu Ataíde distava era muito do cemitério de Caicó, isso eu lembro bem, pois transportar o defunto foi trabalho muito mais penoso pros homens que o sacrifício da cachaça.
Naquela época, cortejo para o cemitério era feito à pé. Colocava o defunto na rede, sustentava por uma trave de madeira e dois ou três homens iam segurando na frente e outro tanto atrás. Calor de fevereiro no Caicó é de rachar o chão e o cortejo se pôs em marcha debaixo daquele sol febril. Os homens, que tinham a dura tarefa de transportar o corpo, já bebidos pela pinga e um tanto desequilibrados, iam a contragosto puxando o cortejo  que seguia lamurioso na voz das mulheres. Na testa deles podia-se ver a pinga escorrendo, enquanto iam fazendo rodízio na carregadura do defunto.
Lá pela metade do trajeto, légua adiante, com  o defunto já distanciado das mulheres, que tinham o passo lento, o tempo começou a se fechar como há muito não se via pelo Caicó. O céu ficou escuro que não se via o sol. Quando as trovoadas começaram e desabou aquele toró, Virgem Maria Santíssima! Aquilo era água, menino! Os homens baixaram o defunto no chão, abandonando-o na estrada e correram a procurar abrigo debaixo dos relampejos que riscavam o escuro do céu. Parecia o dia do juízo final.
As mulheres, bem mais atrás, encontraram as ruínas de um barraco antigo, às margens da estradinha de dois sulcos, onde se abrigaram, morrendo de medo de serem atingidas pelos raios. E foi água que caiu! Enquanto os homens, abrigados no que sobrou de um ranchinho de varetas e barro, lamentavam-se debaixo do aguaceiro, desejosos de terminar logo com o enterro, para voltarem à tarefa de cumprir com suas obrigações junto às garrafas, ocorreu com o defunto um fenômeno destes que só Deus explica. Seu Ataíde sofria de um mal pouco conhecido na ocasião, a tal da catalepsia, doença que a pessoa desfalece, mas não morre.
Ocorre que o calor infernal que fazia foi repentinamente reduzido pela chuva que caiu. Seu Ataíde, estirado na rede e abandonado no chão, recebeu em cima do corpo toda a chuva que Deus mandou, o que lhe provocou um forte choque térmico, fazendo-o recobrar a consciência. Ao acordar, vendo-se na rede no meio da estrada, não entendeu nada do que estava passando, mas sem pestanejar bateu o pé para trás, castigando o lombo debaixo da chuva.
A certa distância avistou o barraco em ruínas onde se encontravam as mulheres rogando a proteção da Virgem, e, de ímpeto, o suposto defunto rumou para dentro dele na intenção de proteger-se da chuva. Deu de testa com a mulherada que, numa explosão de histeria, acabaram por destruir, à peitada, o pouco que existia do barraco. Desentendido, foi ele atropelado pela tropa desenfreada, que embrenhou-se mato adentro, deixando pedaços de saias rasgados nas unhas de gato e outros espinhos da caatinga, debaixo dos estrondos dos relâmpagos.
Quando a chuva passou, e retornaram os homens ao local, encontraram a rede vazia no chão. Uns argumentaram que o defunto deveria ter se ofendido por ter sido abandonado na estrada e com pressa de ser enterrado resolveu seguir sozinho para o cemitério. Correram para lá e constatando que lá não se encontrava o defunto, voltaram decepcionados para a casa da viúva, a fim de encontrarem explicação para o sucedido, sequiosos por um gole.
Lá chegando, que tamanha foi a surpresa encontrar o defunto argumentando com seus dois filhos mais velhos, armados de crucifixos, que ficaram em casa tomando conta da mãe que passava mal, tentando convencê-los de que estava vivo. Sim, por que o restante dos familiares, inclusive a viúva, também havia atravessado a saroba sem olhar para trás.
 Já bem mais tarde, convencidos todos de que o defunto estava vivo, embora sem muito esclarecimento do fato, foram a consenso os homens de que para esquecer o acontecido e evitar possíveis maus agouros, o melhor mesmo era, já que não haveria enterro, pelo menos terminar de beber o defunto. E cachaça da boa não faltou para quem quis.



sexta-feira, 24 de maio de 2013


Vai saber...

     Seu rosto era o de um príncipe de contos de fadas. Seu sorriso encantava, entorpecia. Os cabelos lisos e claros, divididos ao meio, escorriam até o rosto em madeixas cor de mel, emoldurando os traços de um rosto másculo e sedutor. Impossível resistir àqueles olhos que emprestavam a cor ao céu. Seus lábios vermelhos e carnudos poderiam seduzir a mais convicta das virgens com o menor dos chamados e o queixo repartido por uma fissura profunda conferia ao conjunto uma beleza avassaladora.
     Notícia de se tê-lo visto em desalinho não havia quem a desse. Do visual não descuidava e fazia do linho, sempre, um grande aliado. Sapatos sempre polidos e engraxados, calças e camisa impecavelmente bem passadas comungavam invariavelmente a imagem que todo homem refinado aspirava para si próprio. Era a elegância em pessoa.
     Por onde passava arrancava suspiros e comentários sobre sua beleza. Mais que desejado, era sonhado, amado, cobiçado pelas solteiras. Impossível não virar o rosto em sua direção quando cruzava pelo mesmo caminho que elas. O rosto, intencionalmente imberbe, exalava uma fragrância feromônica que depois de escanhoado inspirava lascivamente o pecado nas casadas. Não havia homem que o conhecesse que não odiasse ter nascido no mesmo tempo e espaço que ele.
     Não bastassem todos os predicados físicos que lhe conferiu tão parcialmente o criador, era nascido em berço de ouro. Filho único de um milionário banqueiro crescera cercado de mimos e os cuidados mais esmerados do pai zeloso. Aos dezesseis anos já era considerado um atleta perfeito. Imbatível nadador, quebrava recordes e mais recordes nos jogos estudantis. Assustava sua habilidade com a bola e o prazer com que se dedicava a uma simples pelada.  Judoca, tenista, esgrimista, era íntimo de quase todas as modalidades desportivas.
     Fruto de habilidosa educação, aprendera com o pai e desenvolvera incrível sensibilidade para a gestão financeira, contrariando as pessimistas premissas de “casa de ferreiro espeto de pau.” Belo, inteligente, rico, bom caráter, amado, reunia toda fortuna que o destino pode premiar um mortal.
     Contudo, destarte o despeito natural que inspirava nos corações masculinos, um sorrisinho maldoso e vingativo os homens que o invejavam podiam esboçar triunfantes. Nem tanto por eles mesmos, mas para atingir o coração de suas mulheres que indignadas torciam o nariz quando viam o casal passeando alheios ao despeito delas.
     Casara-se ele com aquela que entre todas era a mais feia. Seus cabelos eram quebradiços e ressecados como os de uma espiga que fora esquecida ao sol. Sua pele esturricada e visitada pelas estrias permitia metáfora com o chão do agreste. Seus olhos cor de baço pareciam querer fugir da órbita e nenhum adereço caía-lhe realmente bem. Tiaras, brincos e maquiagem não lhe eram simpáticos. É como se os acessórios se recusassem ao préstimo de alguma elegância.
     Prendas domésticas não deveriam ser o motivo. Quem a conhecia atestava sua inabilidade no trato da cozinha desde menina. No colégio nem observada era, salvo para alguma chacota. A única coisa que justificaria um casamento como esse seria o dinheiro, mas era justamente o que ela menos tinha. Filha de um pobre funcionário da prefeitura local, vivera uma infância em condições adversas. Mal nutrida, desenvolvera ligeiro raquitismo, estudou pouco, tinha dificuldades cognitivas, uma voz que incomodava os ouvidos alheios e uma cara aborrecida que denunciava um mau-humor crônico. Sabe aqueles desgraçados de nascença que ao olhar para eles sente-se vontade de desgraçar-lhes mais ainda?
    Indignada, a população feminina não encontrava explicação que validasse teoria que justificasse o imbróglio. Nem poderiam. Não fossem os quadros nas paredes as únicas testemunhas que veem o que se passa na câmara dos casais, talvez que se soubesse.
    Quem sabe revelariam que no baixar do véu que cobre o ninho dos amantes, a carne feia e flácida, desprovida de viço, perdesse importância aos olhos do marido e que um metódico despir, expulsando as meias femininas, revelasse um par de pesinhos delicados, macios, brancos e suaves, fazendo o sangue do esposo ferver nas veias e reagir de falo rígido ao contato dos dedinhos dos pés em seus lábios.
    Quem sabe?