Concurso Literário
Eu sempre adorei mulher, por isso resolvi fazer o curso de letras. Eu já
estava com praticamente 30 anos de idade e ainda não tinha cursado uma
faculdade. Minha opção pela Letras se deu pela quase exclusividade do público
feminino no curso. Não que a luxúria fosse a substância que ocupava minha
mente, nem esperem que as próximas linhas se desenvolvam por caminhos lascivos,
mas imaginar-me em uma sala repleta de mulheres toda santa noite e em que
santidade se dariam essas noites, atiçava-me a imaginação.
No primeiro dia de aula estiveram todos os alunos. Quarenta e duas
mulheres e quatro homens. Deus existe, eu tinha dado na cabeça do prego. Não demorou para
que dois dos quatro homens desmunhecassem e outro desistisse logo no primeiro
ano. Assim levamos o curso pelos quatro anos. Claro que existiram as noitadas
santas em que quase transcendi a matéria de tanto gozo espiritual, mas digno de
nota foi o concurso literário que aconteceu no último ano.
O certame foi aberto a todas as faculdades metropolitanas de São Paulo.
Cada participante poderia se inscrever com o número de contos que quisesse,
desde que concorresse com pseudônimos diferentes para cada texto. Sempre me
interessei por literatura e já escrevia contos e poemas desde a adolescência.
Inscrevi todos os contos que eu já tinha escrito, alguns notoriamente bons.
No dia do resultado, reunida a nata da intelectualidade acadêmica
paulistana, acotovelavamo-nos uns aos outros no salão nobre da universidade na
ânsia de ter o nome chamado entre os vencedores.
Deram início às menções honrosas e meu nome não esteve entre elas. Respirei
fundo e pensei com meus botões que meu nome estaria entre os três vencedores.
Chamou a atenção um colega, aquele único homem que sobrou na turma, ter
recebido duas das seis menções. Quando anunciaram o conto vencedor da terceira
colocação e não era meu, o pessimismo começou a me incomodar. Ouvi, pela
terceira vez na noite, o nome do único homem da nossa sala sendo chamado para
receber o prêmio. Em meio às palmas, aos cumprimentos dos professores da
comissão julgadora, o reitor entregou uma medalha, um diploma de participação e
aquele cobiçado vídeo cassete de quatro cabeças, ápice da segregadora
tecnologia do início dos anos noventa. Tudo bem! Respirei fundo mais uma vez e
disfarçando calma, preparei-me para a segunda colocação. Mais uma vez, o conto
não era meu. Chamaram o vencedor e o público concorrente ouviu, comigo, meu
colega de curso ser chamado para abocanhar o segundo lugar. Um borburinho de
insatisfação instalou-se no ambiente, as palmas solidárias deram lugar aos
resmungos e até o reitor se mostrou constrangido à presença reincidente do
sorridente aluno-escritor que recebia em suas mãos um micro-sistem, última
geração, rádio-relógio, toca-fitas, Lps e a revolucionária novidade, o tocador
de Cds. Ai, ódio! Aquilo não podia estar certo. Vencido o entrevero, só restava
rezar ansiosamente para ser chamado como a grande vencedora do concurso.
Decepção absoluta! Anunciaram o título do conto e antes de chamarem o nome do
vencedor, o reitor, sisudo, meio nervoso, visivelmente desconfortável, conferia
com a banca se não havia nada errado. Eu olhava fixamente para ele quando o vi,
numa expressão resignada, chamar o nome daquele único e maldito homem da minha
sala para receber o louro maior da noite. Ah, mas a vingança foi maligna!
Começou com uma vaia geral que se estendeu pelos gritos de marmelada, palhaçada
e vai tomar nos cus. Ele era o pinto no lixo recebendo os cumprimentos do magnífico,
dos professores e das colegas de turma.
Eu sempre fui uma mulher assumida. Aprendi desde cedo a suportar as
conseqüências de minhas escolhas. É por isso que digo que não tive nada com
isso que se sucedeu. Ao descer as escadas que davam para o saguão, o desgraçado
não teve quem o ajudasse a carregar todos aqueles prêmios.
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