EL MARIACHI
“É preciso perdoar os chatos. Eles são de uma
ingenuidade perene.”
Oswaldo Montenegro
Era um
homem curioso o retratista. Alcoólatra, era comum vê-lo passando de lambreta
pela avenida, fazendo, não intencionalmente, mas desequilibrado pelo álcool,
manobras radicais provocando freadas bruscas de carros e arrancando exclamações
de espanto e assombro por parte dos transeuntes. Perambulava bebendo de bar em
bar, com alguns discos de mariachis mexicanos.
Onde chegava pedia para tocar o disco e criava a maior confusão se não o
atendessem. Um bêbado, enjoado às vezes, engraçado outras.
Seu
ofício era exercido numa lojinha de fotos para documentos, numa pequena sala
comercial com frente para a principal avenida do bairro. Morava dentro da
lojinha. Sua cama era um colchão improvisado detrás do biombo que servia de
fundo para as fotos. Do outro lado da avenida, quase defronte ao “Foto Estela”,
ficava a padaria. Geralmente, quando ele acordava, do balcão onde eu trabalhava
podia vê-lo atravessar a avenida em passos trôpegos e vir em busca de um café
amargo.
*
* *
Um dia
acordou com alguém batendo à porta, para tirar umas chapas. Sentou-se no
colchão, levou as costas da mão direita à boca, limpou a saliva dos cantos e
levantou-se cambaleando, sentindo o gosto do próprio fígado na boca. Com
dificuldade ergueu a porta de aço que esquecera destrancada ao chegar de
madrugada e encarou o cliente, fechando o olho esquerdo e cobrindo o direito
com a mão para tapar o sol.
__ Tá
querendo o quê a essa hora? Indagou o fotógrafo.
__ Umas
chapas, Seo Zé. Eu preciso tirá uns documento.
__ Você
sabe se eu me chamo Zé, pra me chamar disso? Vá tirar seus retratos noutro
foto. Resmungou o retratista, com um arroto amargo.
Todavia,
dada a insistência do cliente, mandou que esperasse um pouco e foi lavar o
rosto numa pequena bacia de alumínio. Voltou enfiando a camisa amarrotada por
dentro da calça e levantou de vez a porta, bronqueando com o freguês para
ajudá-lo. Na verdade só o atendeu porque precisava de dinheiro para comprar seu
“combustível diário”. Ao ajeitar o rapaz no tamborete em frente ao biombo, que
era a divisória do seu quarto, percebeu que este era um matuto acaipirado de
dar dó. Mal intencionado, foi arrancando-lhe algumas respostas até descobrir
que o bocó só havia tirado retrato uma vez na vida e há muito tempo. Na hora de
bater a chapa perguntou-lhe como iria querer.
__ Você
quer tirar o retrato com dor ou sem dor?
__ Como
assim? Indagou o inocente.
__ Sem dor é mais caro, com dor é
mais barato, mas você fica ruim uns dois dias, é verdade que quase não dá pra
andar, mas também não é tão ruim assim. Explicou ao jovem lavrador.
__ Ah, então eu vou querer sem
dor. Depois de amanhã eu tenho que tá em casa, num posso ficá parado aqui de
jeito nenhum. Explicou o freguês.
A partir disso, ele teve o melhor
tratamento profissional possível àquele recinto. O fotógrafo deu a ele dois
comprimidos de engov, já desembalados e um copo dágua, dizendo que era o único
remédio do mundo que tirava dor de retrato. Depois não deixou que o matuto
arredasse o pé do local até que as fotos ficassem prontas. Em seguida, entregou
meia dúzia de retratinhos ao cliente que olhou a miniatura de seu rosto no
papel e sorriu satisfeito.
__ Gostou? Se iluda não que eu é
que melhorei essa cara sua, disse o profissional, sorrindo. Tome, fique com
mais duas de brinde e vá-se embora que tenho mais o que fazer.
Mal viu o pobre lavrador
afastar-se, abaixou a porta e saiu em busca de um botequim para rebater a
ressaca.
Quando retornou, apareceu bêbado
e mal humorado. Haviam lhe insultado no bar e ele voltou para pegar uma
garrucha velha de dois canos que trazia guardada entre seus cacarecos.
Enquanto ele se esforçava para levantar a pesada porta
de aço, aproximou-se dele uma senhora de meia-idade com um rádio estragado à
mão, procurando alguém que o consertasse. Olhando o interior do diminuto
cômodo, que era a morada e o estúdio fotográfico, sem identificar o tipo de
comércio ao qual se dispunha o recinto, a dasavisada senhora indagou ao tirador
de chapas:
__Escuta meu
filho, é aqui que conserta rádio?
O fotógrafo bruscamente tirou-lhe o rádio das
mãos, arrancou a tampa do compartimento de pilhas, meteu uma chave de fenda no
interior do aparelho e seguiu destroçando a fiação.
Com ironia
bradou com a mulher: __É aqui mesmo! Olha lá fora o que está escrito. Conserto
rádio, não é? É aqui mesmo! Pronto! Está consertadinho, pode levar.
Com a mesma
rispidez devolveu o rádio à pobre mulher, que apavorada foi procurar os seus
direitos, rogando ao técnico em eletrônica todas as pragas que aprendeu ao
longo de seus anos.
O incidente
fez com que ele esquecesse o que viera procurar. Aborrecido saiu novamente,
retornando à sua via sacra de todos os dias. No primeiro bar foi posto para
fora, assim que pediu para ouvir "Los Mariachis". Protestou, mas saiu
aos empurrões. No bar seguinte, encontrou uma dupla sertaneja, destas de bar de
subúrbio, cantando músicas de Leandro e Leonardo. Incorporou-se a eles,
compondo um trio. Muitas cervejas, doses de pinga e pedaços de frango assado
foram consumidos, até que socou a cara de um dos cantores, por dizer que
Mariachis era coisa de corno. Novamente foi posto para fora, mas desta vez
levou consigo uma garrafa de caninha e um dedo quebrado e bastante inchado.
Refletindo
sobre os acontecimentos, achou injusto o tratamento que estava recebendo das
outras pessoas. "Ora essa! Estão pensando o quê?... Eu sou um homem bom...
Não faço mal a ninguém, só bebo minhas cachaças... E pago com meu dinheiro...
Estão pensando o quê?" A reflexão fê-lo decidir-se a não ser mais saco de
pancadas gratuitamente e resolveu partir para o contra-ataque. "Agora chega. Estão pensando o quê?",
repetia insistentemente.
Sem saber
exatamente como, deu-se conta de estar dentro de um ônibus, segurando na haste
de ferro que separa o motorista dos demais passageiros. O Chacoalhar do ônibus
deixou-o enjoado. Trêmulo, no timbre característico dos bêbados, resmungava sua
ladainha: "Estão pensando o quê?" Num solavanco mais forte,
descontente, advertiu ao motorista: "Pô, mais devagar com essa carroça,
senão eu vou deixar uma caixa de cerveja e um frango assado nesse ônibus."
O Cobrador, desdenhosamente, disse que podia
deixar que ele levaria para casa. Mal acabou de dizer e o fotógrafo abriu a
goela entregando a encomenda ao cobrador. O mal cheiro invadiu o ônibus
provocando um mal estar coletivo. Em meio aos resmungos e protestos dos
usuários, o retratista fixou seus olhos avermelhados numa mulher que o olhava
com nojo e desprezo. "Sabia que a senhora é uma mulher muito feia?",
perguntou o nauseante. "Bêbado desgraçado! Fedorento!", reagiu a
mulher. "Tudo bem, só que amanhã eu estou bom." respondeu consolado,
mirando as demais pessoas. "Estão pensando o quê?... Da metade do ônibus
para trás, só tem corno e mulher safada, do cobrador pra frente, só tem biba e homem
frouxo.” Rugiu desafiando os presentes.
Nisso o motorista que já estava irritado com o
mau cheiro, ansioso por chegar ao ponto final para limpar a imundice do bêbado,
numa manobra brusca encostou o ônibus à guia e partiu para cima do bêbado:
__Repete
isso, seu desgraçado! Repete! Quem é corno aqui?
__Agora eu
já não sei, com essa freada você misturou todo mundo. Respondeu com as mãos do
motorista apertando-lhe o colarinho, antes de levar o primeiro soco, que
estufou-lhe o olho direito. O segundo soco foi amortecido pela turma do
"deixa disso", que devolveu o motorista para o seu lugar, enquanto
tentavam tirar o pobre infeliz de dentro do ônibus. Não conseguiram. O chato
agarrou-se a um dos bancos e não houve quem o fizesse soltar-se. "Já que ele
não desce, desço eu." Disse a mulher muito feia. "Vocês deviam era
deixar o motorista quebrar a cara dele." Finalizou vingando-se, a dita.
Movido por
um estímulo novo, o fotógrafo levantou-se para seguir a mulher, mas tropeçou e
caiu de peito no assoalho do ônibus. Uma alma mais caridosa dispôs-se a
ajudá-lo: "O senhor tem que segurar este ferro, ó." Orientou o
samaritano, levantando o homem. "Eu não vou segurar nada não. Estão
pensando o quê? Me batem, depois vem pedir favor? Não faço não. Estão pensando
o quê? Reagiu o ébrio. "É pro senhor não cair.", explicou o
passageiro caridoso. "Seguro não. Faço nada pra vocês não. Se quiserem, que
arrumem outro filho duma égua pra segurar isso."
Tornou a
falar antes de chegar aos degraus da porta do ônibus: "Abre essa porta,
que vai descer um corno." Disse de si próprio. O motorista, irritado e
interessado em se livrar do estorvo, encostou o ônibus, acionou a válvula de ar
comprimido que abre a porta e pelo retrovisor interno viu o retratista gritar:
"Agora leva o resto".
Machucado,
cheio de hematomas, porém anestesiado, seguiu cambaleante, com a correia da máquina
fotográfica atravessada ao ombro, cantarolando: "Sy Adelita sy fuera com
otro, la seguiria por tierra y por mar..."
Era incorrigível esse retratista.
Era incorrigível esse retratista.
Caro companheiro, penso que a cachaça do "retratista" embaralhou-me os sentidos durante a leitura do texto. Talvez por ingenuidade literária de minha parte, busquei o nexo entre os núcleos distribuídos ao longo da narrativa e não os encontrei, como se fizessem parte de histórias distintas, o que não desmerece o texto. Salvo melhor juízo, o núcleo do retratista no ônibus não contribuiu com a narrativa. No mais, renovo meus cumprimentos habituais. Parabéns.
ResponderExcluirÉ um quadro de esquetes, parceiro. Podemos discuti-lo.
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