PÃO COM TORRESMO
No pão de açúcar
De cada dia
Dai-nos Senhor
A Poesia
De cada dia
Oswald de Andrade
Padaria sempre foi o negócio da
família. Minha foto mais antiga, uns três anos, com a carinha aborrecida e o
olho esquerdo semi-fechado, camisa de mangas curtas, calção de algodão, meias e
sapatos de cadarço, ao lado do Carlinhos, meu irmão mais velho, sobre a grama
da Avenida Goiás, fora tirada em frente à Panificadora Pão Gostoso. Papai, ao
chegar do interior com esposa e Três filhos, se empregou como ajudante de
padeiro e aprendeu a profissão.
Algum tempo depois, não muito,
papai já era sócio com a mãe e o irmão mais velho em sua primeira padaria.
Cresci com o cheiro de pão fresco no nariz, numa época em que ser dono de
padaria conferia aos proprietários o status de pequenos ricos.
“Padaria é negócio pra burro!
Negócio de português.” Alguém sempre dizia e todos concordávamos. Levantar às
três horas da manhã para contar os pães, enquanto mamãe preparava o café e
abria a porta aos primeiros fregueses, foi a rotina a que me vi exposto antes
dos doze anos. Papai geria tudo. Produção interna, externa, compras de
mercadorias, lenha para o forno, cestas, balaios, atendia aos atacadistas,
controlava os carros, as entregas e até o peso do pão.
Aos quarenta, papai já branqueara
os cabelos, mas era um touro o homem. Força muscular indiscutível, rachava
toras de angico à cunha e marreta feito um baiano da roça. Até promovia, vez
por outra, uma apostinha para ver quem rachava um angico trançado mais rápido.
Mas não era ao labor excessivo que atribuía sua grisalhês. “Eu ainda mato um
padeiro! Ô, raça! Ôô, raça!” Para ele não havia dúvidas, eram os padeiros que
lhe encurtavam os anos. O Chico bebia, o Bodão não acordava, o Zico faltava e
outro queimava o pão. “Eu ainda mando todo mundo pra rua.” Os padeiros já
haviam se habituado com a ameaça, mas um dia ele a cumpriu; demitiu uns dois ou
três logo de manhã. Recontratou de tarde.
E foi nesse ambiente que eu
cresci, vendo padeiro matar serviço, substituindo-os às vezes, rachando lenha,
descarregando farinha do caminhão, resmungando para atender ao balcão,
assistindo os ataques de nervos do meu pai e sentindo o cheiro de pão fresco.
Ah! O cheiro de pão fresco...
Dentro daquela padaria tudo
acontecia.
“Padeiro que não bebe não acerta
a mão.” Era o bordão da confraria. Além do mais, naquele dia, o Vila Nova tinha
metido dois a zero no Goiás. Todo mundo no boteco.
__ Ô, tia! Frita um torresmim pra
nois e desce outra que essa aqui já secou.
__ Se tiver pele de torcedor do
Goiás aí, pode fritar também que nois traça.
__ Torresmo, cachaça e canja de periquito
não faz mal a ninguém.
__ Pra ninguém do tigrão, é
claro. Dois a zero! Iiirráá! É hoje!
* *
*
Papai
caminhava agitadamente pra lá e pra cá, dentro da padaria. “Cadê essa turma? Ô,
raça! Ô, raça! Ôô, raça! Eu ainda mato um!”
Papai, quando
nervoso, ficava vermelho feito um peru. Aos berros mandou-me pegar uma saca de
farinha e jogar na masseira. Estava tudo atrasado. Precisava “rodar” a massa.
Tinha acabado de acrescentar fermento à fécula, quando Bodão chegou com os
outros três. Fiquei aliviado e pensei em voltar para dentro de casa, mas papai
disse que não. Voltou ele, apalpando o pescoço e o peito como quem ausculta o
coração.
*
* *
A massa
rodava na masseira e a masseira girava com a massa. Bodão, o mestre, via a
massa rodar e a masseira girar. O mundo também girava. O Serra Dourada, lotado,
girava, as paredes giravam, as rodadas de cerveja rodavam, a cabeça de Bodão
girava e o seu estômago se revoltou. E lá se foi novo ingrediente na massa.
*
* *
Estava tudo atrasado. Dessa vez
não teria perdão. Papai mataria mesmo! Carregaram Bodão para a estufa, debaixo
do forno. Ele bodeou.
Com um padeiro a menos, tudo
atrasado, o jeito era ajudar. Mas o que fazer da massa com o inusitado recheio?
Massa para mais de sessenta bolas é mais de cem quilos. Quase dois mil pães! O
jeito era esconder a massa, mas não tinha onde e massa com fermento cresce e
esparrama. Daria para encher um quarto inteiro. Papai descobriria,
infalivelmente.
__ Tempo pra fazer outra, também
não dá.
__ Dessa vez o Bodão tá é morto.
__ Só se...
__ Só se o quê? O quê?
__ Só se a gente tocar o serviço
assim mesmo.
__ Ocê tá é bêbado!
__ E amanhã nois tamo é morto.
Deixe d´nojo que pão é assado com mais de duzentos grau. Mata qualquer microbe.
Ante o
argumento de salvar a vida do mestre de serviço... tocaram.
* *
*
Dois dias depois, aqueles velhos
fregueses de todas as manhãs, retornavam à padaria e se recusavam a levar o
pãozinho comum. Insistiam naquele tal com torresmo. A novidade acabou virando
mania.
Voltei ao texto, pois já o havia lido, na certeza que o ingrediente novo me provocaria nova reviravolta estomacal.
ResponderExcluirCaro amigo Claudio eu amei este texto, ele até parece uma parte do seu livro, eu comprei li e gostei muito.
ResponderExcluirParabéns pelo conto e pelo seu blog, tá lindo!
Obrigado, sempre gentil Ironita.
ExcluirUiiiiiiiii! Também já havia lido,muito bom como todos os seus contos, mas olha,não há estômago que aguente!
ResponderExcluirXeru;)
Xeru procê também. Obrigado por acompanhar.l
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