segunda-feira, 3 de junho de 2013

O Choque

O Choque
Seu João, o Ceará, era um dos fregueses que chegava logo pela manhã à padaria. Àquela época já ultrapassara os oitenta. Cabelos surpreendentemente fartos e totalmente tingidos de branco pelo tempo, vinha ele, a passos trôpegos, amparado por uma bengala de cabo de madeira envernizada, comprar meia dúzia de pãezinhos para os netos. Caminhar pela manhã lhe era obrigatório, sob pena de atrofia do nervo ciático que um derrame lhe impôs reduzindo-lhe consideravelmente os movimentos. À cabeça trazia, invariavelmente, o característico chapeuzinho de couro nordestino. O sotaque, embora já quase sublimado pelo contato com a fala goiana, ainda podia ser notado num prolongado "arretaaado" ou "aperreado que só vendo".
Como a maioria dos velhos que conheci estando detrás do balcão, sentia enorme necessidade de conversar com quem lhe desse atenção, revelando a impaciência dos familiares, já agastados com as manias e a dependência peculiar de quem já viveu quase a totalidade de seus dias. Admito que às vezes ele se fazia inconveniente, insistindo em conversa nostálgica sobre seus dias de inabalável saúde e as proezas de que fora protagonista, em momentos em que eu precisava atender a outros fregueses. No entanto, sua presença sempre me fora agradável. Gostava de ouvi-lo contar suas reminiscências, as quais, guardei na memória sem perceber.
“Aqui não se tem esse costume não. Mas nos sertões do nordeste isto é uma tradição conservada até hoje. Beber o defunto é encomendar a alma dele a Deus, nosso senhor. Eu lembro de um caso que aconteceu com um vizinho nosso de fazenda. Ele respondia por nome Ataíde Lima. Vaqueiro bom, respeitado por tudo quanto é canto. Era chefe de tropa de transporte. Naquele tempo, caminhão quase que não existia. Carga a gente transportava era no lombo das mulas. saíamos com tropa de oitenta a cem mulas, tudo carregada. Ôxe, que aquilo era bonito de se ver!
 As mulas da frente eram mais enfeitadas do que árvore de natal e na frente só iam as ensinadas. Era chamar pelo nome delas e dizer a direção, que elas obedeciam feito gente inteligente. Ataíde de Lima era chefe de tropa. Serviço dele era recomendado por todo mundo. Vinha gente de longe buscar ele pra transportar uma colheita de milho, feijão de corda... Por isso era ele muito considerado e amigos não lhe faltavam.
Corria o fevereiro de trinta e seis. Calor era de abrasar. Foi quando na fazenda de papai, chegou mensageiro avisando a morte de "seu" Ataíde de Lima. A notícia deixou todo mundo desentendido. Ele era homem forte, vigoroso. Como é que podia aquilo? Notícia era de que tinha morrido do coração. Ataque cardíaco. Em casa de papai, nós éramos oito irmãos; cinco homens e três mulheres. Peão sempre tinha era muito. Quando notícia chegou, papai mandou a peonada se ajuntar e fomos todos prestar nossas condolências ao amigo.
Chegando na casa de Ataíde, mamãe com minhas irmãs, se ajuntaram com as outras mulheres da casa e iniciaram a cantoria. cantoria sentida de sofrimento que encomenda a alma do defunto. Papel das mulheres no velório, reza a tradição, é o da cantoria. Cantoria de oração. Vela pelo defunto. Os homens, por sua vez, bebem o defunto. Beber o defunto é beber pela alma dele. Oferenda de pinga aos santos, que agradecidos abrem o caminho no mundo desconhecido. Enquanto as mulheres fazem os seus sacrifícios nas ladainhas santas, os homens fazem os seus, vertendo a aguardente.
Pois o velório assim se procedeu. Muitos galões de cachaça da boa, pinga de alambique queimada no prato com casca de fruta qualquer, foi sendo consumida com desgosto e cantigas e choros dos parentes e amigos de seu Ataíde. Sertão de Caicó deixei faz tanto tempo que memória já nem me lembra. Mas fazenda de seu Ataíde distava era muito do cemitério de Caicó, isso eu lembro bem, pois transportar o defunto foi trabalho muito mais penoso pros homens que o sacrifício da cachaça.
Naquela época, cortejo para o cemitério era feito à pé. Colocava o defunto na rede, sustentava por uma trave de madeira e dois ou três homens iam segurando na frente e outro tanto atrás. Calor de fevereiro no Caicó é de rachar o chão e o cortejo se pôs em marcha debaixo daquele sol febril. Os homens, que tinham a dura tarefa de transportar o corpo, já bebidos pela pinga e um tanto desequilibrados, iam a contragosto puxando o cortejo  que seguia lamurioso na voz das mulheres. Na testa deles podia-se ver a pinga escorrendo, enquanto iam fazendo rodízio na carregadura do defunto.
Lá pela metade do trajeto, légua adiante, com  o defunto já distanciado das mulheres, que tinham o passo lento, o tempo começou a se fechar como há muito não se via pelo Caicó. O céu ficou escuro que não se via o sol. Quando as trovoadas começaram e desabou aquele toró, Virgem Maria Santíssima! Aquilo era água, menino! Os homens baixaram o defunto no chão, abandonando-o na estrada e correram a procurar abrigo debaixo dos relampejos que riscavam o escuro do céu. Parecia o dia do juízo final.
As mulheres, bem mais atrás, encontraram as ruínas de um barraco antigo, às margens da estradinha de dois sulcos, onde se abrigaram, morrendo de medo de serem atingidas pelos raios. E foi água que caiu! Enquanto os homens, abrigados no que sobrou de um ranchinho de varetas e barro, lamentavam-se debaixo do aguaceiro, desejosos de terminar logo com o enterro, para voltarem à tarefa de cumprir com suas obrigações junto às garrafas, ocorreu com o defunto um fenômeno destes que só Deus explica. Seu Ataíde sofria de um mal pouco conhecido na ocasião, a tal da catalepsia, doença que a pessoa desfalece, mas não morre.
Ocorre que o calor infernal que fazia foi repentinamente reduzido pela chuva que caiu. Seu Ataíde, estirado na rede e abandonado no chão, recebeu em cima do corpo toda a chuva que Deus mandou, o que lhe provocou um forte choque térmico, fazendo-o recobrar a consciência. Ao acordar, vendo-se na rede no meio da estrada, não entendeu nada do que estava passando, mas sem pestanejar bateu o pé para trás, castigando o lombo debaixo da chuva.
A certa distância avistou o barraco em ruínas onde se encontravam as mulheres rogando a proteção da Virgem, e, de ímpeto, o suposto defunto rumou para dentro dele na intenção de proteger-se da chuva. Deu de testa com a mulherada que, numa explosão de histeria, acabaram por destruir, à peitada, o pouco que existia do barraco. Desentendido, foi ele atropelado pela tropa desenfreada, que embrenhou-se mato adentro, deixando pedaços de saias rasgados nas unhas de gato e outros espinhos da caatinga, debaixo dos estrondos dos relâmpagos.
Quando a chuva passou, e retornaram os homens ao local, encontraram a rede vazia no chão. Uns argumentaram que o defunto deveria ter se ofendido por ter sido abandonado na estrada e com pressa de ser enterrado resolveu seguir sozinho para o cemitério. Correram para lá e constatando que lá não se encontrava o defunto, voltaram decepcionados para a casa da viúva, a fim de encontrarem explicação para o sucedido, sequiosos por um gole.
Lá chegando, que tamanha foi a surpresa encontrar o defunto argumentando com seus dois filhos mais velhos, armados de crucifixos, que ficaram em casa tomando conta da mãe que passava mal, tentando convencê-los de que estava vivo. Sim, por que o restante dos familiares, inclusive a viúva, também havia atravessado a saroba sem olhar para trás.
 Já bem mais tarde, convencidos todos de que o defunto estava vivo, embora sem muito esclarecimento do fato, foram a consenso os homens de que para esquecer o acontecido e evitar possíveis maus agouros, o melhor mesmo era, já que não haveria enterro, pelo menos terminar de beber o defunto. E cachaça da boa não faltou para quem quis.



3 comentários:

  1. Prosa boa,"cumpadre". Esses velórios esquecidos nos rincões de um passado distante, realmente, são subsídios para muitas rodas de boa prosa. Parabéns, mais uma vez.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Excelente conto. Narrativa leve e bem estruturada.

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